REDE REFUGIA: INOVAÇÃO DIGITAL PARA ACOLHIMENTO, INTEGRAÇÃO E COLABORAÇÃO ENTRE REFUGIADOS
Estevão Cristian da Silva Leite prestígio (1)
Avaliação por modelos + Supervisão Editorial.
Aceite provisório
Registro já válido e público — número, score e prova congelados. Em revisão complementar do comitê; um endosso o torna definitivo, e o número não muda.
Plataforma transforma a ajuda mútua entre refugiados em serviço digital de colaboração com organizações humanitárias.
Resumo executivo
Brasil acolhe 156,6 mil refugiados e já interiorizou mais de 150 mil venezuelanos em 1,1 mil municípios, evidenciando a urgência de integrar essas pessoas ao trabalho, à moradia e aos serviços públicos. A Rede Refugia é uma plataforma colaborativa que conecta kigrantes, refugiados, organizações humanitárias, poder público e sociedade civil para articular ofertas e demandas nas áreas de emprego, documentação, saúde, moradia e outros . Desenvolvida com Design Science Research e Design Thinking, a solução combinou revisão sistemática da literatura, entrevistas com refugiados e organizações, e testes de usabilidade, com 85,7% dos usuários dispostos a utilizá-la com frequência. Em operação com mais de 80 usuários em www.rederefugia.org, a iniciativa articula ambiente digital com encontros presenciais para fortalecer redes de apoio, em um modelo escalável e replicável para diferentes contextos e territórios.
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Entre para baixar o PDF registradoREDE REFUGIA: INOVAÇÃO DIGITAL E COLABORAÇÃO PARA ACOLHIMENTO, PROTEÇÃO E INTEGRAÇÃO DE PESSOAS EM SITUAÇÃO DE DESLOCAMENTO FORÇADO
1. Introdução
A mobilidade internacional vem assumindo dimensões cada vez mais relevantes no cenário contemporâneo. De acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM), com base nas estimativas da Divisão de População das Nações Unidas, havia aproximadamente 304 milhões de migrantes internacionais em meados de 2024, correspondendo a cerca de 3,7% da população mundial (OIM, 2026). Embora os migrantes internacionais representem uma parcela relativamente pequena da população global, os fluxos migratórios produzem impactos econômicos, sociais, culturais e humanitários significativos nos países de origem, trânsito e destino.
No Brasil, a complexidade desse cenário também se expressa no crescimento e na diversificação dos fluxos de refúgio. Segundo dados do Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), sistematizados pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), o país registrou 68.159 novas solicitações de reconhecimento da condição de refugiado em 2024. Ao final daquele ano, o número acumulado de pessoas reconhecidas como refugiadas no Brasil alcançou 156.612, evidenciando a dimensão crescente das demandas relacionadas à proteção internacional e à integração dessa população (BRASIL, 2025).
Entre os principais fluxos que impactaram o sistema brasileiro de acolhimento está a crise humanitária venezuelana. Em resposta a esse movimento, o Governo Federal instituiu, em 2018, a Operação Acolhida, estratégia humanitária voltada ao atendimento, acolhimento, regularização e interiorização de migrantes e refugiados venezuelanos em situação de vulnerabilidade. A iniciativa articula diferentes órgãos públicos e organizações humanitárias e, em 2024, contava com aproximadamente 121 parceiros, entre agências das Nações Unidas, instituições governamentais e organizações não governamentais (BRASIL, 2025).
A estratégia de interiorização constitui uma das principais ações da Operação Acolhida para promover a saída voluntária e segura de pessoas da região de fronteira para outras localidades do país. Até o final de janeiro de 2025, 145.694 pessoas haviam sido interiorizadas para 1.078 municípios brasileiros (BRASIL, 2025). Em 2025, a iniciativa ultrapassou a marca de 150 mil migrantes e refugiados venezuelanos interiorizados em mais de 1.100 municípios, demonstrando a amplitude territorial alcançada pela política pública (BRASIL, 2025).
Esses números evidenciam que o desafio brasileiro não se restringe ao atendimento emergencial na fronteira. À medida que milhares de pessoas são interiorizadas e passam a reconstruir suas trajetórias em diferentes cidades, cresce também a necessidade de mecanismos que favoreçam o acesso a informações, serviços, oportunidades de trabalho, moradia, renda, redes de apoio e integração social.
É nesse contexto que a Rede Refugia se apresenta como uma proposta de inovação social e tecnológica. Ao buscar conectar pessoas refugiadas, organizações humanitárias, poder público, empresas e sociedade civil, a iniciativa procura contribuir para uma resposta mais articulada, participativa e colaborativa aos desafios de acolhimento, proteção e integração.
Dessa forma o objetivo do presente trabalho é apresentar o processo de estruturação de redes de colaboração entre pessoas deslocadas a força, apoiado por tecnologia digital.
2. Referencial teórico
A integração de pessoas refugiadas envolve diferentes dimensões da vida social. Não se trata somente de garantir proteção jurídica ou assistência emergencial, mas também de possibilitar condições para que essas pessoas reconstruam suas vidas e desenvolvam autonomia no território de acolhimento (SKRAN; EASTON-CALABRIA, 2020).
O estudo do ACNUR sobre o perfil socioeconômico dos refugiados no Brasil já havia identificado desafios relacionados à inserção econômica, ao empreendedorismo e ao acesso a recursos, indicando a existência de barreiras que interferem na autonomia dessa população (ACNUR, 2019). Dados apresentados posteriormente em Refúgio em Números também demonstram a dimensão e a complexidade do fenômeno no país (JUNG et al., 2022).
No processo de investigação realizado para a Rede Refugia, foram identificadas dificuldades relacionadas a barreiras linguísticas e culturais, inserção no mercado de trabalho, xenofobia e racismo, acesso a serviços públicos, conhecimento sobre os territórios e identificação das organizações capazes de oferecer apoio (LEITE, 2022). A literatura especializada corrobora esses achados, indicando que o domínio do idioma e outras características demográficas e pessoais, como idade, nível educacional e redes de apoio, influenciam diretamente o processo de inclusão (IOM, 2019). A falta de comando do idioma pode aumentar significativamente as vulnerabilidades dos refugiados (IOM, 2019), enquanto a integração socioeconômica para diferentes grupos étnico-linguísticos mostra-se mais complexa (TEYE; YEBLEH, 2015).
Paralelamente, as organizações que atuam na resposta humanitária enfrentam desafios relacionados à disponibilidade de recursos, financiamento e articulação institucional (LEITE, 2022). Gatrell (2019) aponta que a ajuda humanitária tornou-se um negócio bilionário e que o cenário de cooperação nacional e internacional, especialmente com governos e agências intergovernamentais, tornou-se indispensável para viabilizar as ações.
Esse cenário revela uma lacuna importante: existem demandas concretas por determinados recursos e, simultaneamente, existem pessoas e organizações que dispõem de conhecimentos, serviços, oportunidades e outras capacidades que poderiam contribuir para atender essas necessidades. O problema está, em parte, na ausência de mecanismos que facilitem e sistematizem essas conexões (LEITE, 2022).
A pesquisa também evidenciou que formas de colaboração já ocorrem espontaneamente entre pessoas refugiadas. Compartilhamento de informações, indicação de serviços, apoio para inserção profissional, organização de atividades e outras formas de ajuda demonstram a existência de redes informais de solidariedade (LEITE, 2022). Teye e Yebleh (2015) argumentam que refugiados devem ser incentivados a formar grupos de apoio mútuo baseados em princípios de solidariedade, o que pode contribuir significativamente para seus meios de subsistência.
A oportunidade identificada pela pesquisa foi transformar essas relações em um serviço estruturado. Essa abordagem está alinhada à concepção de inovação social de Manzini (2014), segundo a qual novas soluções podem surgir da recombinação criativa de recursos e capacidades já existentes nas comunidades.
3. Metodologia
A pesquisa adotou uma abordagem multimetodológica, caracterizada pelo uso de dois ou mais métodos de forma não trivial para abordar questões complexas (CHOI et al., 2016). Foram empregados três métodos principais:
3.1. Design Science Research (DSR) - Método "Guarda-chuva"
O DSR é um método prescritivo que visa desenvolver artefatos capazes de resolver problemas práticos e produzir conhecimento técnico-científico (COLLATTO et al., 2018). Além de projetar e/ou prescrever, o DSR avalia o quão bem o artefato atinge os objetivos e pode ser generalizado para classes de problemas (VAN AKEN, 2004).
Os passos do DSR observados na pesquisa foram: Identificação do problema: vinculado ao desafio de inserção de refugiados no mercado de trabalho via empreendedorismo no contexto de dois desastres (crise humanitária de refugiados e pandemia de Covid-19); Conscientização do problema: realizada por meio de uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL); identificação de soluções existentes: obtida também através da RSL; Proposição de solução: desenvolvida e avaliada seguindo as etapas do Design Thinking; Aprendizagem e conclusões; Generalização e comunicação: dos resultados por meio da dissertação.
3.2 Revisão Sistemática da Literatura (RSL) Segundo Fink (2005, p.3), "a revisão da literatura é um método sistemático, explícito e reprodutível que permite identificar, avaliar e sintetizar dados de trabalhos produzidos e registrados por estudiosos e pesquisadores". A RSL foi desenvolvida em oito etapas (THOMÉ et al., 2016): Planejamento e identificação do problema; Busca na literatura; Coleta de dados; Avaliação da qualidade; Análise e síntese dos dados; Interpretação; Apresentação dos resultados; Atualização da revisão.
A busca foi realizada nas bases SCOPUS e ISI Web of Science (WoS), considerando sua multidisciplinaridade e relevância científica (THOMÉ et al., 2016). Os grupos de palavras-chave definidos foram:
Grupo Tema Palavras-chave Grupo 1 Refugiado refugee OR "asylum seeker" OR migrant OR "internally displaced person" Grupo 2 Pandemia pandemic OR covid-19 OR coronavirus OR h1n1 OR sars OR ebola OR disaster OR humanitarian* OR relief Grupo 3 Empreendedorismo entrepreneur* OR business OR market A busca, realizada em 06 de outubro de 2020, resultou em 577 documentos (388 na SCOPUS e 189 na WoS). Após exclusão de duplicatas (109 documentos) e aplicação de critérios de exclusão, restaram 68 documentos para leitura completa.
A análise bibliométrica foi realizada com o software VosViewer (VAN ECK; WALTMAN, 2010), aplicando técnicas relacionais como co-citação, coautoria, co-ocorrência e acoplamento bibliográfico. A análise de conteúdo foi organizada em cinco categorias: (i) refugiados e proteção internacional; (ii) empreendedorismo e autossuficiência de refugiados; (iii) refúgio, desastres e migração ambientalmente forçada; (iv) ação dos stakeholders (baseada no modelo 3PR de FONTAINHA et al., 2017); e (v) projetos de apoio a refugiados. Os resultados da RSL são apresentados na dissertação de mestrado do autor.
3.3. Design Thinking (DT)
O Design Thinking foi utilizado para conduzir a proposição da solução, percorrendo as fases de descoberta, interpretação, ideação, experimentação e evolução (IDEO, 2012). A relação entre as etapas do DT e os procedimentos do DSR é destacada por Pimentel et al. (2020). Organizado nas seguintes fases 3.3.1 Fase de Descoberta Realizada em dois ciclos:
- Primeiro ciclo: RSL, conversas informais, observação de casos de inovação social (JÉGOU; MANZINI, 2008) e imersão na literatura sobre inovação social e serviços colaborativos (MANZINI, 2016);
- Segundo ciclo: entrevistas semiestruturadas com 10 refugiados empreendedores e 10 representantes de organizações.
O protocolo de pesquisa foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFRJ (Parecer nº 5.422.095), sendo elaborados: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), instrumentos de coleta de dados para refugiados e para representantes de organizações.
3.3.2 Fase de Interpretação As evidências coletadas foram sistematizadas em cartões de insight (VIANNA et al., 2012), compostos por fatos, fontes de evidência e desafios relacionados ao tema. Os cartões foram organizados por similaridade temática por meio de um diagrama de afinidades (VIANNA et al., 2012), resultando em quatro grupos: (i) integração de refugiados; (ii) combate à xenofobia e racismo; (iii) colaboração entre refugiados e organizações; e (iv) financiamento de organizações humanitárias.
3.3.3 Fase de Ideação Realizada em duas etapas: Entre julho e dezembro de 2020, no âmbito da disciplina de Design de Serviços da COPPE/UFRJ; Entre setembro de 2021 e junho de 2022, com revisão do modelo de negócio.
Foram utilizadas quatro ferramentas: Brainstorming: para proposição de soluções; Canvas (OSTERWALDER; PIGNEUR, 2011): para modelagem da solução como serviço de inovação social (CIPOLLA; MANZINI, 2009); Persona: para representar narrativas dos usuários; Blueprint da Jornada do Usuário (VIANNA et al., 2012): para mapear as interações. A equipe do projeto contou com profissionais das áreas de Design Industrial, Comunicação Social, Direito, Engenharia de Software e Engenharia de Produção.
3.3.4 Fase de Experimentação A prototipagem foi realizada utilizando o software Figma (versão 88.1.0), e o desenvolvimento do artefato foi feito com Javascript usando o framework React Native. O serviço colaborativo Rede Refugia foi concebido como uma plataforma multilateral, com dois segmentos de usuários: (i) refugiados, solicitantes de refúgio, titulares de visto humanitário e migrantes; (ii) pessoas e organizações que atuam ou desejam atuar na crise humanitária de refugiados.
3.3.5 Fase de Evolução Foram realizados testes de usabilidade com 7 participantes potenciais (3 refugiados, 3 representantes de organizações e 1 especialista em desenvolvimento de software), utilizando o System Usability Scale - SUS (BROOKE, 1995). Os resultados foram analisados segundo a escala proposta por Bangor et al. (2009) e pela avaliação heurística de Nielsen (1994).
4. Resultados, validação e inovação
Após o desenvolvimento do MVP, foi realizada uma etapa de demonstração em ambiente controlado, permitindo verificar a utilização das funcionalidades e identificar oportunidades de aprimoramento.
A avaliação envolveu três refugiados, sendo dois venezuelanos e um da República Democrática do Congo, três representantes de organizações relacionadas à resposta humanitária e um especialista em desenvolvimento de software. Os participantes receberam cenários de utilização e executaram tarefas no protótipo. Posteriormente, responderam ao System Usability Scale (SUS), instrumento proposto por Brooke (1995) para avaliação de usabilidade.
A avaliação alcançou pontuação média de 65,36 no SUS, com resultados individuais entre 52,5 e 87,5 pontos. A análise seguiu a escala discutida por Bangor, Kortum e Miller (2009), permitindo identificar uma experiência de usabilidade aceitável, embora ainda com oportunidades de melhoria.
Além da dimensão quantitativa, a avaliação incorporou uma etapa qualitativa. Os participantes puderam registrar suas principais observações e sugerir novas funcionalidades e formas de organização das informações. Esse procedimento permitiu que o teste funcionasse também como uma etapa de co-criação e aperfeiçoamento da solução. Entre os aspectos identificados para evolução destacaram-se a eficiência do serviço, a minimização de erros, a organização das informações e a melhoria contínua da experiência do usuário. A literatura de usabilidade reforça a importância dessas dimensões para a qualidade de sistemas interativos (NIELSEN, 1994). Um resultado particularmente relevante foi que 85,71% dos participantes afirmaram que gostariam de utilizar o sistema frequentemente, indicando uma percepção favorável em relação à proposta do serviço.
Atualmente, a Rede Refugia encontra-se em estágio operacional, com a tecnologia já em funcionamento, disponíveç no link www.rederefugia.org e mais de 80 usuários cadastrados. Além da plataforma digital, a iniciativa estabeleceu espaços presenciais de articulação e fortalecimento, promovendo encontros, oficinas e atividades que complementam a experiência digital e aprofundam as relações de confiança e colaboração entre os participantes. Essa combinação entre ambiente virtual e interação presencial tem se mostrado essencial para a construção de redes de apoio efetivas e para o fortalecimento comunitário entre pessoas refugiadas e organizações parceiras.
A inovação da Rede Refugia está na combinação entre inovação social, tecnologia, Design de Serviços e colaboração. No campo da inovação social, a proposta reconhece que comunidades possuem recursos, conhecimentos e capacidades que podem ser mobilizados para enfrentar problemas coletivos (MANZINI, 2014). No contexto dos refugiados, isso significa superar uma lógica na qual o indivíduo aparece exclusivamente como receptor de assistência. No campo dos serviços colaborativos, a proposta aproxima-se do modelo em que o usuário participa ativamente da produção do serviço, contribuindo para a construção do valor gerado pela interação (JÉGOU; MANZINI, 2008). No campo do Design de Serviços, a solução utiliza uma abordagem centrada na experiência e nas jornadas dos diferentes stakeholders, valorizando a co-criação e a qualidade das interações (STICKDORN et al., 2018; JOLY et al., 2019).
Dessa forma, a inovação não está apenas no software produzido. O principal elemento inovador está no modelo de relacionamento que a tecnologia viabiliza: necessidades são transformadas em demandas, capacidades são transformadas em ofertas e conexões podem ser transformadas em colaboração. Essa perspectiva também encontra respaldo na literatura sobre ecossistemas de serviços, que compreende a criação de valor como resultado da interação entre múltiplos atores que articulam seus recursos em benefício mútuo (TRISCHLER; CHARLES, 2019).
5. Impacto, replicabilidade e sustentabilidade
A Rede Refugia foi concebida para produzir valor em diferentes níveis do ecossistema humanitário. Para as pessoas refugiadas, o serviço pode ampliar o acesso a informações, oportunidades de trabalho e renda, redes de apoio e serviços, além de possibilitar que seus conhecimentos e habilidades sejam reconhecidos e compartilhados. Para as organizações humanitárias, a plataforma pode funcionar como mecanismo complementar de articulação, contribuindo para identificar demandas, divulgar oportunidades e ampliar conexões. Para o poder público, existe potencial de apoio à identificação de demandas territoriais e ao fortalecimento das relações entre políticas, serviços e população. Para empresas e organizações privadas, a plataforma pode criar oportunidades de participação em iniciativas relacionadas à diversidade, inclusão e impacto social.
Esses impactos, contudo, precisam ser diferenciados dos resultados efetivamente mensurados na pesquisa. O estudo validou inicialmente a solução e sua usabilidade, mas não realizou uma avaliação longitudinal de impacto social em ambiente real. Assim, os impactos apresentados constituem potencial de aplicação e deverão ser mensurados nas etapas posteriores de implementação.
A estrutura proposta para a Rede Refugia não depende exclusivamente de uma organização ou de um território específico. Sua lógica pode ser adaptada a diferentes contextos, incorporando atores, demandas e recursos disponíveis em cada localidade. A própria abordagem metodológica contribui para essa replicabilidade. A investigação de campo, o mapeamento dos atores, a construção de personas e jornadas, a co-criação, a prototipação e a avaliação podem ser reaplicados para compreender especificidades de novas comunidades. A escalabilidade pode ocorrer gradualmente, partindo de redes locais para articulações regionais e nacionais. Em uma perspectiva futura, a mesma lógica poderia ser adaptada para conectar redes de apoio entre diferentes países e contextos de deslocamento forçado.
A Rede Refugia foi concebida como uma solução para um problema que não pode ser enfrentado isoladamente por uma única instituição. Seu funcionamento depende da articulação entre universidades, organizações humanitárias, poder público, empresas, sociedade civil e pessoas refugiadas. Essa multiplicidade de atores está relacionada à própria natureza dos ecossistemas de serviços, nos quais diferentes participantes integram recursos e competências para produzir valor (TRISCHLER; CHARLES, 2019). A universidade contribui com pesquisa, conhecimento e desenvolvimento. As organizações humanitárias agregam experiência territorial e conhecimento sobre o público. O poder público possui papel central na oferta e articulação de políticas e serviços. Empresas podem contribuir com tecnologia, recursos e oportunidades. A sociedade civil amplia as redes de colaboração. As pessoas refugiadas, por sua vez, participam como protagonistas e co-criadoras da solução.
A sustentabilidade econômica também constitui um dos desafios para a próxima fase. A pesquisa identificou possibilidades relacionadas a doações, fundos, apoio universitário e parcerias com instituições públicas e privadas, uma vez que a manutenção e expansão do serviço dependerão de recursos humanos, tecnológicos e financeiros.
Por envolver informações pessoais e relações entre diferentes usuários, a Rede Refugia incorpora preocupações relacionadas à proteção de dados. A proposta prevê o tratamento das informações dos usuários em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais – Lei nº 13.709/2018, contemplando aspectos relacionados ao cadastro, acesso às informações e direitos dos usuários (BRASIL, 2018). Essa dimensão é particularmente relevante em soluções dirigidas a populações em situação de vulnerabilidade. A governança da informação, portanto, deve ser considerada parte integrante do desenvolvimento tecnológico e da expansão futura da plataforma.
6. Aprendizados e próximos passos
O desenvolvimento da Rede Refugia demonstra que a inovação social exige mais do que uma resposta tecnológica para um problema previamente definido. É necessário compreender profundamente as necessidades, relações e barreiras presentes no contexto.
Um dos principais aprendizados foi a importância da participação dos usuários na construção da solução. O processo de co-criação permitiu incorporar diferentes perspectivas e demonstrou que refugiados e representantes de organizações podem atuar como fontes de conhecimento para o desenvolvimento do serviço. Outro aprendizado foi a necessidade de desenvolver tecnologia e serviço de maneira integrada. Uma plataforma digital, isoladamente, não resolve problemas sociais complexos. É a combinação entre tecnologia, jornada do usuário, relações interpessoais e organização do ecossistema que cria as condições para a geração de valor. A avaliação também demonstrou que a etapa de testes não deve ser compreendida apenas como uma verificação final. O feedback dos participantes produziu informações que podem ser utilizadas diretamente no aprimoramento do serviço, reforçando a centralidade humana defendida pelo Design de Serviços (STICKDORN et al., 2018).
Embora a Rede Refugia já se encontre em estágio operacional com mais de 80 usuários e com espaços presenciais de articulação estabelecidos, os próximos passos deverão concentrar-se na ampliação dos testes e da base de usuários, no aperfeiçoamento da experiência do usuário, na evolução tecnológica da plataforma, no estabelecimento de parcerias institucionais e na realização de pilotos em novos territórios.
Também será necessário desenvolver indicadores capazes de acompanhar não apenas a utilização da solução, mas seu impacto social. Entre esses indicadores estão o número de usuários cadastrados e ativos, número de organizações participantes, demandas e ofertas registradas, conexões realizadas, colaborações concluídas, oportunidades de trabalho identificadas, acesso a serviços e satisfação dos usuários. A evolução desses indicadores permitirá que o projeto avance de uma etapa de validação da solução para uma etapa de mensuração de impacto em escala.
7. Conclusão
A Rede Refugia demonstra como pesquisa acadêmica, inovação tecnológica e inovação social podem convergir para enfrentar um problema complexo da sociedade contemporânea.
A partir da investigação das experiências de pessoas refugiadas e organizações humanitárias, foi possível identificar uma oportunidade de inovação baseada no fortalecimento das relações de colaboração. Essa oportunidade foi transformada em um serviço digital capaz de organizar demandas e ofertas e facilitar conexões entre diferentes atores.
O desenvolvimento baseado em Design Science Research, Design Thinking e Design de Serviços possibilitou percorrer um ciclo de investigação, co-criação, prototipação, desenvolvimento e avaliação. A construção do MVP, sua posterior avaliação e a atual operação da plataforma com mais de 80 usuários forneceram evidências iniciais sobre a adequação da proposta e apontaram caminhos concretos para seu aperfeiçoamento.
O resultado médio de 65,36 pontos no SUS e as contribuições qualitativas dos participantes demonstram que a solução possui uma base inicial de usabilidade, ao mesmo tempo em que evidenciam a necessidade de evolução contínua. A participação dos usuários mostrou-se igualmente fundamental para identificar novas possibilidades e aperfeiçoar a experiência do serviço.
A principal contribuição da Rede Refugia, entretanto, ultrapassa a dimensão tecnológica. O projeto propõe uma mudança de perspectiva sobre o processo de acolhimento e integração, reconhecendo pessoas refugiadas como participantes ativos de uma rede de geração de valor. Nesse sentido, a Rede Refugia utiliza tecnologia para aproximar pessoas, Design de Serviços para compreender suas jornadas, espaços presenciais para fortalecer vínculos e colaboração para transformar conexões em valor social.
A proposta pode ser sintetizada em uma lógica simples: conectar necessidades, reconhecer capacidades e transformar conexões em colaboração. É nessa convergência entre tecnologia, design, presencialidade e participação social que reside o principal potencial inovador da Rede Refugia.
8. Referencias
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Apêndices
Apêndice A - Roteiro de entrevista com refugiados (resumido)
-Dados pessoais: gênero, raça, idade, escolaridade, situação de emprego, renda.
- Processo de refúgio e colaboração mútua: principais desafios na recepção no Brasil; causa do deslocamento; dificuldades na solicitação de refúgio e situação atual; recebimento e oferta de ajuda durante o acolhimento; apoio recebido do governo brasileiro e de organizações humanitárias.
- Mercado de trabalho e empreendedorismo: se o negócio foi a primeira fonte de renda; percepção de autossuficiência; motivação para empreender; apoio recebido no processo empreendedor; comparação de renda entre Brasil e país de origem.
- Impactos da Covid-19: efeitos da pandemia no negócio ou emprego.
- Uso de tecnologia: acesso à internet; dispositivos utilizados; meios pelos quais busca ajuda; redes sociais e aplicativos utilizados.
Apêndice B - Roteiro de entrevista com representantes de organizações (resumido)
-Ações principais da organização em relação a refugiados.
- Desafios enfrentados pela organização no ecossistema humanitário.
- Estratégias para superar os desafios.
- Percepção sobre os principais desafios dos beneficiários.
- Análise do modelo 3PR (FONTAINHA et al., 2017): relação com stakeholders públicos, privados e pessoas.
- Colaboração mútua com outras organizações.
- Apoio a refugiados empreendedores.
- Atendimento a pessoas deslocadas por desastres.
- Impactos da pandemia de Covid-19 nas atividades.
- Canais de comunicação e uso de tecnologia.
Apêndice C - Roteiro de teste de usabilidade (SUS) (resumido)
Os participantes receberam cenários de uso da plataforma e executaram tarefas como: navegar pela página inicial, autenticar-se, completar cadastro, filtrar ofertas/demandas por categoria, registrar oferta ou demanda, excluir oferta e alterar endereço no perfil. Após a execução, responderam ao questionário SUS (10 perguntas sobre frequência de uso, complexidade, facilidade, necessidade de suporte, integração, inconsistência, aprendizado, usabilidade, confiança e necessidade de aprendizado prévio).
Observação: esses instrumentos foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFRJ (Parecer nº 5.422.095) e aplicados com a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) por todos os participantes.
Como citar
LEITE, Estevão Cristian da Silva. REDE REFUGIA: INOVAÇÃO DIGITAL PARA ACOLHIMENTO, INTEGRAÇÃO E COLABORAÇÃO ENTRE REFUGIADOS. Crivum, 2026. Disponível em: https://crivum.org/p/2h3ubw7r.
Leite, E. C. S. (2026). REDE REFUGIA: INOVAÇÃO DIGITAL PARA ACOLHIMENTO, INTEGRAÇÃO E COLABORAÇÃO ENTRE REFUGIADOS. Crivum. https://crivum.org/p/2h3ubw7r
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