Inovação Aberta em Bioinsumos e Produção Regenerativa: Desenvolvimento de Insumos de Alto Valor Agregado a partir do Manejo Sustentável do Ajuru na Restinga
Estela Mitie Cruvinel prestígio (1)
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Ajuru da restinga amazônica vira bioativo cosmético que estimula colágeno 17 com cadeia regenerativa e renda para coletoras locais
Resumo executivo
O trabalho apresenta a estruturação de uma cadeia produtiva inédita para o aproveitamento sustentável do Ajuru em restingas e praias amazônicas, articulando Natura, consultoria da UFPA, COOMAC, Cofruta e mulheres coletoras na RESEX Marinha Caeté-Taperaçu. O desafio central foi conciliar prospecção científica de um fruto pouco estudado, desenvolvimento de ingrediente dermocosmético de alto valor agregado, conservação de um ecossistema costeiro sensível e inclusão produtiva de comunidades locais.
A prática combinou pesquisa ecológica, monitoramento ambiental por satélites, drones e instrumentos de campo, manejo regenerativo com limite voluntário de colheita, capacitação comunitária e processamento cooperativista descentralizado a técnicas laboratoriais complexas, como ensaios in vitro e clínicos. Como resultado, a manteiga de Ajuru foi validada como bioativo associado à modulação de colágenos 1 e 17 e aplicada a um sérum para olhos, com depósitos de patentes, indicadores clínicos e impactos socioeconômicos relatados para as coletoras e cooperativas envolvidas.
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Yorgana Carolina Yajure Prado, Cintia Ferrari, Ulf Mehlig, Luci Pereira, Fabiana Paes, Pedro Soldati
1. Resumo:
O trabalho apresenta a estruturação de uma cadeia produtiva inédita para o aproveitamento sustentável do Ajuru em restingas e praias amazônicas, articulando Natura, consultoria da UFPA, COOMAC, Cofruta e mulheres coletoras na RESEX Marinha Caeté-Taperaçu. O desafio central foi conciliar prospecção científica de um fruto pouco estudado, desenvolvimento de ingrediente dermocosmético de alto valor agregado, conservação de um ecossistema costeiro sensível e inclusão produtiva de comunidades locais.
A prática combinou pesquisa ecológica, monitoramento ambiental por satélites, drones e instrumentos de campo, manejo regenerativo com limite voluntário de colheita, capacitação comunitária e processamento cooperativista descentralizado a técnicas laboratoriais complexas, como ensaios in vitro e clínicos. Como resultado, a manteiga de Ajuru foi validada como bioativo associado à modulação de colágenos 1 e 17 e aplicada a um sérum para olhos, com depósitos de patentes, indicadores clínicos e impactos socioeconômicos relatados para as coletoras e cooperativas envolvidas
2. Contexto e Desafio Multidimensional
2.1 Fundamentação Científica e Mecanismos Biológicos O desenvolvimento de bioprodutos antienvelhecimento exige a identificação de alvos moleculares profundos e fontes botânicas sustentáveis. O envelhecimento cutâneo resulta em atrofia epidérmica devido à diminuição celular (Lee et al., 2021) e degradação da matriz extracelular (MEC), onde os colágenos Tipo I (COL-I) e Tipo III (COL-III) garantem a sustentação mecânica e a elasticidade da derme (Glynn & Smith, 1988; Boraldi et al., 2020). A proteína transmembrana Colágeno XVII (COL17) desempenha um papel crítico na ancoragem dos hemidesmossomos (HDs) na junção dermo-epidérmica (JDE) e na manutenção do nicho de células-tronco basais epidermais (Liu et al., 2019; Liu et al., 2022).
Com o envelhecimento, a expressão de COL17 diminui significativamente, levando à microdeslaminação celular, atrofia, flacidez e perda de firmeza (Liu et al., 2022; Wang et al., 2021). A preservação e estimulação da via do COL17 representa um dos avanços mais promissores na biotecnologia cosmética para conter a senescência celular profunda.
2.2 Matriz de Desafios da Cadeia do Ajuru
1. Gargalo Científico e Tecnológico: Necessidade de mapear mecanismos biológicos inéditos
em um fruto com escasso histórico de caracterização fitoquímica e dermatológica.
2. Vulnerabilidade Socioeconômica: Barreiras estruturais de renda e falta de oportunidades
formais para mulheres extrativistas e pesqueiras na RESEX Marinha Caeté-Taperaçu.
3. Risco Ecológico e Impacto Climático: Monitoramento realizado entre 2019 e 2025 indicou
erosão costeira e recuo da linha de praia. A vegetação de restinga atua como barreira física vital contra a erosão, exigindo protocolos rígidos de colheita de baixo impacto.
4. Inexistência de Cadeia de Suprimentos: Ausência completa de rotas logísticas e
infraestrutura agroindustrial de beneficiamento da semente e extração da manteiga na região.
Objetivo Geral: Viabilizar a prospecção e o aproveitamento sustentável do Ajuru na restinga amazônica por meio de uma rede de inovação aberta, integrando ciência de ponta, conservação ambiental, beneficiamento cooperativista e inclusão socioeconômica.
3. Ecossistema de Inovação Aberta
Para superar a complexidade do projeto, a Natura atuou como polo articulador de uma rede multidisciplinar de colaboração, estruturada em quatro pilares fundamentais:
• Natura Cosméticos S.A. (Corporação): Liderança do projeto, caracterização fitoquímica
avançada, financiamento de P&D, desenvolvimento de testes biológicos in vitro/ex vivo e ensaios clínicos, escalamento industrial e proteção intelectual (patentes).
• Universidade Federal do Pará - UFPA (Academia): Diagnóstico ecológico e ambiental,
monitoramento de dunas e vegetação via satélites e drones, análise de dinâmica costeira e definição das diretrizes de manejo regenerativo (limite sustentável de extração fixado em no máximo 50% dos frutos disponíveis).
• Mulheres Coletoras da Vila dos Pescadores - RESEX Caeté-Taperaçu (Comunidade
Local): Atuação direta na coleta on farm de baixo impacto ambiental, organização social comunitária e gestão dos recursos extrativistas.
• COOMAC & Cofruta (Cooperativas): A COOMAC assumiu a logística de recepção, despolpa
e secagem solar das sementes. A Cofruta realizou a adequação industrial do seu parque fabril para efetuar a prensagem mecânica e obtenção da manteiga pura de Ajuru.
4. Resultados
4.1 Acompanhamento e Monitoramento Ambiental Rastreamento de dunas e mapeamento do Ajuru via satélites e drones, preservando a sustentabilidade da cadeia costeira) Uso de satélite Sentinel-2 e VANTs para mapear dunas e vegetação. Através do mepaemento foi possível mitigar riscos climáticos através do mapeamento e expansão para novas áreas extrativistas similares. Mapeamento de novas áreas extrativistas na RESEX Araí-Peroba.
4.2 Manejo com Foco Regenerativo (Diretrizes rigorosas de colheita, garantindo a disponibilidade de frutos para a fauna e a regeneração natural da espécie.)
O recuo da linha de costa provocado pelas marés ameaça a restinga na área primária. Para preservar esse ecossistema sensível e garantir a resiliência da cadeia, há necessidade de descentralizar a demanda, diminuindo a pressão sobre a área principal.
Diretrizes para Adaptação e Réplica
Capacitação das Bases: Desenvolvimento de laboratórios sociais e encontros de saberes para fortalecer a autonomia feminina e o cooperativismo.
Academia Primeiro: Estabelecer parcerias com universidades locais de referência.
Descentralizar Valor: Capacitar e delegar o processamento industrial primário às cooperativas locais.
Teto de Manejo: Adotar regras voluntárias e conservadoras de coleta para garantir regeneração.
Monitoramento Ativo: Integrar sensoriamento remoto de baixo custo à rotina das comunidades.
4.3 Validação In Vitro e Ex Vivo Os ensaios in vitro em modelo 3D de pele senescente demonstraram que a manteiga de Ajuru promoveu a recuperação da via do COL17 com aumento da expressão gênica dos marcadores COL17, ITGb4 e ITGa6, além da diminuição de MMP9 e ADAM9.
Figura 1: Recuperação da via do COL17 e marcadores associados em modelo 3D de pele envelhecida tratada com Manteiga de Ajuru.
Em biópsias de pele humana mantidas ex vivo e tratadas por 3 dias com o produto cosmético, a avaliação por imunofluorescência evidenciou um aumento de 116,87% (p < 0,001) na produção de colágeno Tipo I; aumento de 199,35% (p < 0,001) na produção de colágeno Tipo III; e aumento de 62,79% (p < 0,01) na produção de colágeno Tipo XVII em relação ao controle (Wang et al., 2011).
Figura 2: Imunofluorescência em biópsias de pele humana indicando aumento significativo da síntese de Colágenos I, III e XVII após 3 dias de tratamento.
Figura 1, imagem não disponível nesta vista.
Figura 2, imagem não disponível nesta vista.
4.4 Estudos Clínicos de Eficácia e Performance Cutânea O protocolo clínico foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) sob o CAAE 83574424.9.0000.5514 (Parecer 7.151.681/2024). O estudo avaliou o desempenho do produto Natura Chronos Derma Super Sérum para Olhos em voluntárias humanas:
• Redução da Ptose Palpebral: Medições por análise de imagem demonstraram redução
estatisticamente significativa (p < 0,05) na queda das pálpebras de 1,9% (até 3,0%) aos 7 dias;
1,9% (até 3,7%) aos 14 dias; 2,0% (até 4,1%) aos 28 dias; e 2,1% (até 4,5%) aos 60 dias de uso continuado, com 66% das voluntárias apresentando melhora visível.
Figura 3: Evolução clínica demonstrando firmeza e redução da ptose palpebral (T0, T28 e T60).
• Elasticidade e Biomecânica Cutânea (Cutometer® Ur/Uf): Aumento significativo (p < 0,05)
na elasticidade da pele de 7,2% aos 14 dias e 15,2% aos 28 dias de uso domiciliar, com resposta positiva em 100% dos participantes (Kim et al., 2018; Zahouani & Portes, 2009).
Figura 4: Elevação dos valores de elasticidade (Ur/Uf) aos 14 e 28 dias.
Figura 3, imagem não disponível nesta vista.
Figura 4, imagem não disponível nesta vista.
• Hidratação Cutânea Prolongada: Avaliação por capacitância demonstrou aumento de
hidratação de 74,8% após 15 minutos e 13,9% após 24 horas, mantendo ganho estatisticamente significativo (p < 0,05) por até 48 horas.
Figura 5: Percentual de aumento da hidratação cutânea ao longo de 48 horas pós-aplicação.
5. Avaliação de Impactos
5.1 Impactos Não Financeiros (Socioambientais, Científicos e Governança)
• Conservação e Regeneração Ambiental: Adoção do limite voluntário de coleta de 50% dos
frutos assegura a manutenção da fauna local e a regeneração natural da restinga, preservando barreira ecológica contra a erosão marinha.
• Inclusão Social e Autonomia Feminina: Capacitação direta de 15 mulheres extrativistas
(representando 14% das famílias da Vila dos Pescadores), promovendo liderança comunitária, formalização e poupança coletiva.
• Fortalecimento Cooperativista e Transferência Tecnológica: Modernização dos
equipamentos e processos industriais da Cofruta e COOMAC, gerando ativo permanente de eficiência produtiva e capacidade instalada para o processamento de novos bioativos da Amazônia.
• Integração Ciência-Comunidade: Intercâmbio de conhecimentos entre a academia (UFPA) e
os moradores locais, capacitando a comunidade em técnicas de monitoramento ambiental e gestão territorial.
Figura 5, imagem não disponível nesta vista.
5.2 Impactos Financeiros e de Negócio
• Desempenho Comercial Expressivo: Lançado em julho de 2025 no Brasil e América Latina
na linha Natura Chronos Derma Super Sérum para Olhos, o produto registrou vendas superiores ao produto anterior para olhos.
• Geração de Renda Compartilhada: O valor pago pelo quilo do fruto do Ajuru às coletoras
aumentou expressivamente, proporcionando um crescimento de 500% na renda extrativista familiar.
• Vantagem Competitiva e Propriedade Intelectual: Consolidação de ativos protegidos por
patentes em um segmento premium de alto crescimento (antienvelhecimento), expandindo a capacidade de inovação e margem de rentabilidade corporativa.
6. Conclusão
O case do Ajuru na Restinga Amazônica demonstra a viabilidade de conectar a ciência de fronteira em dermocosméticos ao desenvolvimento territorial sustentável. A articulação entre empresa, academia, cooperativas e comunidade tradicional criou um modelo replicável de inovação aberta regenerativa, onde a alta tecnologia industrial e a conservação da biodiversidade caminham de forma sinérgica e rentável.
7. Referências Bibliográficas
Boraldi, F., Lofaro, F. D., Bonacorsi, S., Mazzilli, A., Garcia-Fernandez, M., & Quaglino, D.
(2020). The Role of Fibroblasts in Skin Homeostasis and Repair. Biomedicines, 8(7), 203.
Glynn, L. E., & Smith, T. W. (1988). Age-related changes in the proportion of types I and III collagen. Mechanisms of Ageing and Development, 44(1), 1-16.
Kim, M. A., Kim, E. J., & Lee, H. K. (2018). Use of Skin Fibrometer® to measure skin elasticity and its correlation with Cutometer® and DUB® Skinscanner. Skin Research and Technology, 24(3), 466-471.
Lee, H. Y., Hong, Y. K., & Kim, M. Y. (2021). Structural and Functional Changes and Possible Molecular Mechanisms in Aged Skin. International Journal of Molecular Sciences, 22(22), 12489.
Liu, N., Matsumura, H., Kato, T., et al. (2019). Stem cell competition orchestrates skin homeostasis and ageing. Nature, 568, 344–350.
Liu, Y., Ho, C., Wen, D., Sun, J., Huang, L., Gao, Y., Li, Q., & Zhang, Y. (2022). Targeting the stem cell niche: role of collagen XVII in skin aging and wound repair. Stem Cell Research & Therapy, 13(1), 428.
Wang, C., Yan-hua, R., Fang-gang, N., & Guo-an, Z. (2011). The content and ratio of type I and III collagen in skin differ with age and injury. African Journal of Biotechnology, 10(63), 13830-13835.
Wang, X., Yu, S., Sun, R., et al. (2021). Functional role of collagen XVII in epidermal maintenance. Frontiers in Cell and Developmental Biology, 9, 680214.
Zahouani, H., & Portes, P. (2009). Skin biomechanics: From basic science to clinical applications. Journal of Biomechanics, 42(7), 901-911.
Como citar
CRUVINEL, Estela Mitie. Inovação Aberta em Bioinsumos e Produção Regenerativa: Desenvolvimento de Insumos de Alto Valor Agregado a partir do Manejo Sustentável do Ajuru na Restinga. Crivum, 2026. Disponível em: https://crivum.org/p/gwi024o0.
Cruvinel, E. M. (2026). Inovação Aberta em Bioinsumos e Produção Regenerativa: Desenvolvimento de Insumos de Alto Valor Agregado a partir do Manejo Sustentável do Ajuru na Restinga. Crivum. https://crivum.org/p/gwi024o0
@misc{crivum_ec51,
author = {Estela Mitie Cruvinel},
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year = {2026},
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note = {Crivum EC51},
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