Plataforma Droneiros Voluntários: um modelo de voluntariado tecnológico para apoio à resposta a desastres
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Drones voluntários podem ajudar em desastres, mas só funcionam como política pública quando há confiança, regras e coordenação.
Resumo executivo
O artigo apresenta a plataforma Droneiros Voluntários, desenvolvida no âmbito da COPPE/UFRJ, como uma proposta para organizar pilotos civis de drones em ações de apoio à resposta a desastres. A pesquisa toma Petrópolis/RJ como contexto empírico e investiga, por meio de oito entrevistas semiestruturadas com gestores públicos, voluntários, parceiros técnicos e acadêmicos e representantes da sociedade civil, quais condições favorecem ou dificultam a institucionalização desse tipo de voluntariado tecnológico.
Os resultados preliminares indicam que a efetividade da plataforma não depende apenas da infraestrutura digital ou da disponibilidade de drones e operadores. A institucionalização exige legitimação política e operacional, mecanismos de governança e confiança, sustentabilidade de recursos e integração com as comunidades afetadas. O estudo ressalta que os achados ainda são iniciais, sem saturação teórica, e não permitem afirmar que a plataforma já seja um modelo validado, sustentável ou replicável.
Paper completo
Entre para baixar o PDF registradoTítulo: PLATAFORMA DE VOLUNTARIADO COM DRONES PARA RESPOSTA A DESASTRES: UM ESTUDO EXPLORATÓRIO EM PETRÓPOLIS
Resumo:
Desastres recorrentes exigem respostas ágeis. Este artigo apresenta a plataforma Droneiros Voluntários (DV), que conecta pilotos certificados a órgãos de defesa civil para coleta de dados geoespaciais. Descrevemos seu desenho, fluxos operacionais e modelo de negócios. Com base em 8 entrevistas com stakeholders em Petrópolis/RJ, identificamos quatro fatores críticos para sua institucionalização: validação jurídica, confiança interinstitucional, viabilidade financeira e aceitação comunitária. Os resultados sugerem que a consolidação da DV depende de um arranjo relacional estável entre governo, voluntários e sociedade. Estudo exploratório, pré-operacional; conclusões são hipóteses a serem testadas.
Palavras-chave: Drones; Voluntariado; Defesa Civil; Inovação Social.
1. INTRODUÇÃO
Eventos climáticos extremos, como os deslizamentos em Petrópolis (2022), revelam fragilidades na resposta a emergências (FONTAINHA et al., 2022a). A rapidez na obtenção de imagens aéreas é crucial para orientar resgates. Cidadãos com drones passaram a atuar espontaneamente, gerando dados valiosos – prática alinhada à Volunteered Geographic Information (GOODCHILD, 2007) e ao humanitarismo digital (MEIER, 2015). Porém, essa atuação descoordenada gera ruído, duplicação e insegurança jurídica (FONTAINHA et al., 2022b). Iniciativas internacionais existem (Humanitarian UAV Network), mas o Brasil carece de plataformas que integrem voluntários ao poder público com protocolos e sustentabilidade. A plataforma Droneiros Voluntários (DV), desenvolvida na COPPE/UFRJ, visa preencher essa lacuna. Este artigo tem dois objetivos: descrever a DV e identificar, a partir da percepção de atores locais, os condicionantes para sua institucionalização. O estudo é exploratório e ocorreu antes da operação real da plataforma; portanto, os achados são percepções, não efeitos mensurados.
2. A PLATAFORMA DV
Proposta de valor: para a Defesa Civil – acesso a pilotos treinados sem custos; para voluntários – canal formal com reputação; para a sociedade – transparência e dados para políticas públicas; para a pesquisa – bases geoespaciais.
Fluxo operacional (MVP previsto 2026):
Cadastro e certificação (treinamento ENAP, não substitui habilitação ANAC).
Acionamento pela Defesa Civil, com notificação de voluntários disponíveis.
Execução do voo e entrega direta dos dados à Defesa Civil.
Avaliação mútua, gerando histórico e reputação.
Arquitetura técnica: backend Node.js/Python, frontend React, banco PostGIS, notificações. Código em repositório privado. Hospedagem RENDER (US$ 14/mês).
Modelo de negócios: baseado em parcerias público-privadas e editais (BOCKEN et al., 2014). Clientes potenciais: agências de fomento e Defesa Civil. Parceiros: município, bombeiros, ONGs, universidades. Recursos iniciais: R$ 950 + FAPERJ. Receitas futuras: consultorias e patrocínios. Indicadores: missões, áreas mapeadas, pessoas treinadas. Modelo financeiro ainda não testado em demanda real.
3. METODOLOGIA
Pesquisa qualitativa exploratória com análise temática (BRAUN; CLARKE, 2006), inspirada em procedimentos da Grounded Theory (CHARMAZ, 2006) para codificação indutiva, sem saturação teórica.
Coleta: 8 entrevistas semiestruturadas (fev-abr/2026, média 50 min), gravadas e transcritas. Recrutamento por bola de neve a partir de contatos da equipe com a Defesa Civil e pilotos. Segmentos: gestores (2), pilotos (2), parceiros técnicos (2), comunidade (2).
Roteiro: 7 blocos (perfil, legitimidade, fluxos, recursos, valor, integração). Aprovado pelo CEP/COPPE (parecer nº 5.678.901/2026). Todos assinaram TCLE. Dados anonimizados (códigos G01, DV01 etc.).
Análise: codificação inicial com Taguette, focalização, agregação temática. Confiabilidade: dupla codificação (30%, acordo >85%) e member checking com 2 participantes. Triangulação com documentos de design da plataforma e relatórios da Defesa Civil.
Limitação: plataforma não operou em missões reais; não há métricas de desempenho.
**4. RESULTADOS
A análise convergiu para uma categoria integradora – institucionalização relacional – definida como o processo de legitimação da plataforma na rede de governança, dependente de quatro dimensões interligadas.
D1 – Validação jurídica: gestores exigem laudos com cadeia de custódia. "Sem carimbo técnico, não posso interditar" (G01). Outro: "Urgência pode flexibilizar, mas a regra é o rigor" (G02).
D2 – Confiança e governança: tensão entre transparência e controle. "A plataforma filtra o dado bruto para não poluir a rádio da operação" (PT02). Voluntários relataram sobreposição em desastres anteriores.
D3 – Viabilidade financeira: voluntariado tem limites. "Quem paga o drone queimado e a licença do software? Só amor não sustenta" (DV02). Gestores admitem não ter orçamento para drones, mas podem oferecer infraestrutura.
D4 – Aceitação comunitária: moradores temem vigilância. "A comunidade precisa saber que o drone protege, não fiscaliza" (SC01). Transparência sobre o uso das imagens é essencial.
As dimensões são circulares: legitimidade requer confiança e recursos; governança exige legitimidade e participação; sustentabilidade depende de reconhecimento; integração comunitária necessita de confiança e legitimidade.
5. DISCUSSÃO
Os achados dialogam com a literatura de VGI (GOODCHILD, 2007) e drones humanitários (MEIER, 2015), que apontam desafios similares de validação e integração. A DV, porém, é desenhada para um contexto de baixo orçamento, o que torna a sustentabilidade financeira central.
À luz da Teoria dos Stakeholders (MITCHELL et al., 1997), a saliência dos voluntários é cíclica: em crises, seu poder se eleva; na normalidade, o Estado retoma o controle. Pela Teoria da Dependência de Recursos (PFEFFER; SALANCIK, 2015), a assimetria é clara: governo tem autoridade, voluntários têm tecnologia. A DV atua como redutora de incerteza, mas com risco de co-optação. Comparada a outras iniciativas brasileiras, a DV se diferencia pela governança multissetorial. A replicabilidade é hipótese. Sem dados operacionais, não há evidência de eficácia.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo apresentou a plataforma Droneiros Voluntários e identificou quatro fatores críticos para sua institucionalização em Petrópolis. Os achados indicam que a consolidação vai além da tecnologia, exigindo um processo relacional contínuo entre Estado, voluntários e comunidade.
Contribuições: mapeamento de dimensões para gestores; integração teórica de stakeholders, dependência de recursos e modelos sustentáveis.
Limitações: amostra pequena, viés de rede favorável, ausência de dados operacionais, conflito de interesse (autores são proponentes). Conclusões são hipóteses.
Agenda: novos ciclos com atores críticos; testes simulados e reais com indicadores; expansão para outros municípios; avaliação financeira em cenários variados.
REFERÊNCIAS
BOCKEN, N. M. P.; SHORT, S. W.; RANA, P.; EVANS, S. Journal of Cleaner Production, v. 65, p. 42-56, 2014.
BRAUN, V.; CLARKE, V. Qualitative Research in Psychology, v. 3, n. 2, p. 77-101, 2006.
CHARMAZ, K. Constructing Grounded Theory. Sage, 2006.
FONTAINHA, T. C.; LEIRAS, A.; BANDEIRA, R. A. M. Disaster Prevention and Management, v. 31, n. 2, p. 140-155, 2022a.
FONTAINHA, T. C.; VALENTIM, G.; LEIRAS, A. Journal of Humanitarian Logistics, v. 12, n. 3, p. 310-328, 2022b.
GOODCHILD, M. F. GeoJournal, v. 69, n. 4, p. 211-221, 2007.
MEIER, P. Digital Humanitarians. CRC Press, 2015.
MITCHELL, R. K.; AGLE, B. R.; WOOD, D. J. Academy of Management Review, v. 22, n. 4, p. 853-886, 1997.
PFEFFER, J.; SALANCIK, G. R. The External Control of Organizations. Stanford University Press, 2015.
Como citar
CALDAS, Renan. Plataforma Droneiros Voluntários: um modelo de voluntariado tecnológico para apoio à resposta a desastres. Crivum, 2026. Disponível em: https://crivum.org/p/r8t0h4rz.
Caldas, R. (2026). Plataforma Droneiros Voluntários: um modelo de voluntariado tecnológico para apoio à resposta a desastres. Crivum. https://crivum.org/p/r8t0h4rz
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