
Inovação e sustentabilidade nos modelos de negócios: experiências de duas empresas industriais diante dos desafios climáticos
CONRAD, I.; KNEIPP, J.M. prestígio (1)
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Duas indústrias gaúchas mostram que sustentabilidade avança primeiro pela eficiência operacional — e só depois chega à estratégia climática.
Resumo executivo
O trabalho analisa como duas empresas industriais de Santa Cruz do Sul/RS incorporam sustentabilidade e inovação aos seus modelos de negócios diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas. A pesquisa adota abordagem qualitativa, com estudo de casos múltiplos, utilizando entrevistas semiestruturadas, análise documental e observação para comparar práticas, capacidades, barreiras e aprendizados.
As evidências indicam que as empresas convergem em iniciativas de eficiência energética e material, reaproveitamento de recursos, economia circular, uso de fontes renováveis, inovação e gestão de riscos climáticos. A Alfa apresenta trajetória mais operacional e processual, enquanto a Beta demonstra maior integração entre sustentabilidade, inovação, stakeholders, gestão de riscos e estratégia. O estudo conclui que a transformação pode ocorrer de forma progressiva, adaptada às características de cada organização, embora ainda existam barreiras ligadas a investimentos, infraestrutura, tecnologia, regulação e cadeia de suprimentos.
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Resumo
As mudanças climáticas impõem às empresas industriais o desafio de reduzir impactos ambientais e, simultaneamente, fortalecer sua capacidade de adaptação e continuidade operacional. Este case apresenta a experiência de duas empresas industriais localizadas em Santa Cruz do Sul/RS na incorporação de sustentabilidade e inovação aos seus modelos de negócios. A investigação foi desenvolvida por meio de estudo de casos múltiplos, com abordagem qualitativa, utilizando entrevistas semiestruturadas, análise documental e observação. As evidências demonstram que as empresas adotam diferentes trajetórias, mas convergem na implementação de práticas de eficiência energética e material, reaproveitamento de recursos, economia circular, utilização de fontes renováveis, inovação e gestão de riscos climáticos. A Alfa apresenta uma configuração predominantemente operacional e processual, enquanto a Beta demonstra maior integração entre sustentabilidade, inovação, gestão de riscos, stakeholders e estratégia. Os casos também revelam que práticas de mitigação estão mais consolidadas do que iniciativas de adaptação, além de evidenciarem barreiras relacionadas a investimentos, infraestrutura, tecnologia, regulação e cadeia de suprimentos. O principal aprendizado é que a transformação pode ocorrer de forma progressiva e adaptada às características de cada organização, oferecendo possibilidades de replicação para outros contextos industriais.
Palavras chaves: Modelos de negócios sustentáveis . Inovação . Mudanças climáticas . Sustentabilidade empresarial . Indústria.
Abstract Climate change presents industrial companies with the challenge of reducing environmental impacts while simultaneously strengthening their capacity for adaptation and operational continuity. This case study presents the experience of two industrial companies located in Santa Cruz do Sul/RS in incorporating sustainability and innovation into their business models. The investigation was developed through a multiple case study, with a qualitative approach, using semi-structured interviews, document analysis, and observation. The evidence shows that the companies adopt different trajectories, but converge in the implementation of practices of energy and material efficiency, resource reuse, circular economy, use of renewable sources, innovation, and climate risk management. Alfa presents a predominantly operational and procedural configuration, while Beta demonstrates greater integration between sustainability, innovation, risk management, stakeholders, and strategy. The cases also reveal that mitigation practices are more consolidated than adaptation initiatives, in addition to highlighting barriers related to investments, infrastructure, technology, regulation, and supply chain. The main lesson is that transformation can occur progressively and adapted to the characteristics of each organization, offering possibilities for replication in other industrial contexts.
Keywords: Sustainable business models. Innovation. Climate change. Corporate sustainability. Industry.
1 CONTEXTO E DESAFIO
As mudanças climáticas constituem um dos principais desafios contemporâneos para as organizações, afetando sistemas econômicos, sociais e ambientais e ampliando a exposição das empresas a riscos físicos e operacionais. O aumento da temperatura média do planeta e a intensificação de eventos extremos, como secas, enchentes e ondas de calor, evidenciam a necessidade de respostas organizacionais capazes de reduzir impactos ambientais e, simultaneamente, ampliar a capacidade de adaptação diante de cenários de crescente incerteza , c onforme o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC, 2023), as atividades humanas permanecem como principal vetor do aumento das emissões de G ases de E feito E stufa (GEE), reforçando a necessidade de transformações nos padrões de produção e consumo.
Nesse contexto, a indústria ocupa posição estratégica. Por um lado, caracteriza-se pelo consumo significativo de energia, matérias-primas e outros recursos, o que amplia sua exposição aos desafios relacionados à eficiência e às emissões. Por outro, apresenta elevado potencial para incorporar inovações em processos, produtos, tecnologias e formas de organização capazes de reduzir impactos ambientais e gerar ganhos de eficiência. A crescente presença da sustentabilidade nas decisões de investidores, consumidores e demais stakeholders também tem ampliado a necessidade de integrar questões ambientais e climáticas às estratégias empresariais.
Esse cenário impõe às organizações um desafio que ultrapassa a adoção de iniciativas ambientais isoladas: incorporar a sustentabilidade à própria lógica de funcionamento e geração de valor do negócio. Nesse sentido, os modelos de negócios sustentáveis representam uma possibilidade de integração entre objetivos econômicos, sociais e ambientais, permitindo que práticas como eficiência no uso de recursos, economia circular, inovação sustentável e utilização de fontes renováveis sejam incorporadas aos processos organizacionais. No contexto empresarial, essa integração pode produzir simultaneamente benefícios ambientais, operacionais e econômicos, aproximando sustentabilidade e competitividade.
O desafio torna-se ainda mais relevante diante da necessidade de as organizações não apenas reduzirem suas contribuições para as mudanças climáticas, mas também desenvolverem capacidade para responder aos impactos que já se manifestam. Enquanto práticas de mitigação estão associadas à redução das emissões e dos impactos ambientais, práticas de adaptação envolvem o fortalecimento da capacidade organizacional para lidar com riscos, vulnerabilidades e alterações nas condições de operação. Assim, eficiência energética, redução de desperdícios e circularidade podem contribuir para a mitigação, enquanto planejamento, gestão de riscos, continuidade operacional e fortalecimento da resiliência ampliam a capacidade adaptativa das organizações.
No Rio Grande do Sul, essa discussão assume particular relevância em razão da exposição do território a eventos climáticos extremos, incluindo enchentes, estiagens e outros eventos meteorológicos severos. Essas ocorrências podem afetar diretamente a infraestrutura, o abastecimento de insumos, as operações industriais e as cadeias de suprimentos, exigindo das organizações respostas mais estruturadas e capacidade de adaptação. Para as empresas industriais, portanto, o desafio consiste em conciliar a continuidade e a competitividade do negócio com a necessidade de reduzir impactos ambientais e responder às novas condições impostas pelo contexto climático.
É nesse contexto que se inserem as experiências de duas empresas industriais localizadas em Santa Cruz do Sul/RS, analisadas neste case. As organizações apresentam diferentes características quanto ao porte, segmento de atuação e estrutura produtiva, mas compartilham a incorporação de princípios de sustentabilidade às suas estratégias e práticas organizacionais. Suas experiências permitem observar como iniciativas relacionadas à eficiência energética e material, reaproveitamento de recursos, economia circular, inovação, relacionamento com stakeholders e gestão de riscos climáticos são incorporadas aos modelos de negócios e utilizadas para responder aos desafios ambientais e climáticos.
Dessa forma, o case busca compreender como a incorporação da sustentabilidade e da inovação aos modelos de negócios de empresas industriais contribui para a redução de impactos ambientais e para o fortalecimento da capacidade de adaptação e da resiliência diante dos riscos climáticos. A análise comparativa das duas organizações permite identificar práticas, capacidades, resultados e limitações, bem como elementos que podem contribuir para a replicação dessas experiências em outros contextos industriais.
2 . O CASE: INOVAÇÃO E SUSTENTABILIDADE NOS MODELOS DE NEGÓCIOS
O case foi desenvolvido a partir da análise comparativa de duas empresas industriais localizadas em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, que apresentam diferentes características quanto ao porte, segmento de atuação e estrutura produtiva, mas compartilham a incorporação da sustentabilidade às suas estratégias e práticas organizacionais. A escolha das organizações ocorreu em razão da aderência de suas práticas ao desafio investigado, especialmente quanto à adoção de iniciativas relacionadas à sustentabilidade, inovação e enfrentamento dos impactos associados às mudanças climáticas.
A experiência das empresas evidencia uma mudança na forma de compreender a sustentabilidade no ambiente industrial. Em vez de permanecer restrita a ações ambientais específicas, a sustentabilidade passou a integrar decisões relacionadas aos processos produtivos, ao uso de recursos, ao desenvolvimento de produtos, às relações com stakeholders e à gestão dos riscos que podem afetar a continuidade das operações. Essa integração aproxima as questões ambientais e climáticas das decisões estratégicas e dos mecanismos de criação e geração de valor das organizações.
A transformação observada está associada à incorporação progressiva de práticas voltadas à eficiência energética e material, ao reaproveitamento de recursos, à economia circular, à inovação sustentável e à utilização de fontes renováveis. Essas iniciativas são acompanhadas por ações de capacitação e sensibilização dos colaboradores, fortalecimento das relações com fornecedores, clientes e comunidade e desenvolvimento de mecanismos de gestão relacionados aos riscos climáticos.
No âmbito operacional, a eficiência no uso de energia e materiais constitui um dos principais elementos das iniciativas desenvolvidas pelas empresas. As organizações realizam investimentos em modernização de equipamentos, otimização de processos produtivos e acompanhamento do consumo de recursos, buscando reduzir desperdícios e melhorar o desempenho operacional. Além da dimensão ambiental, essas iniciativas estão associadas à redução de custos e ao aumento da eficiência dos processos.
Outro componente relevante do case é a adoção de práticas relacionadas à economia circular. As empresas desenvolvem ações de reaproveitamento de resíduos produtivos, reciclagem de materiais e reinserção de determinados insumos nos processos industriais. Essas iniciativas contribuem para reduzir a geração de resíduos e o consumo de recursos naturais, embora sua ampliação dependa das características dos materiais utilizados, das exigências regulatórias e da capacidade de articulação com fornecedores e parceiros.
A inovação também aparece como elemento de integração entre sustentabilidade e estratégia empresarial. As organizações incorporam critérios ambientais ao desenvolvimento de produtos, processos e tecnologias, considerando aspectos como utilização de matérias-primas renováveis, redução do consumo energético e melhoria do desempenho ambiental. Dessa forma, a inovação deixa de estar associada exclusivamente ao desenvolvimento tecnológico ou à produtividade e passa a contribuir também para a solução de desafios ambientais e climáticos.
A dimensão humana e relacional complementa esse processo. As empresas desenvolvem ações de capacitação e sensibilização ambiental dos colaboradores, fortalecendo uma cultura organizacional orientada à sustentabilidade. Paralelamente, a interação com fornecedores, clientes, comunidade e demais stakeholders amplia o alcance das iniciativas, uma vez que parte dos desafios relacionados à sustentabilidade e às mudanças climáticas ultrapassa os limites internos das organizações.
A experiência das empresas também revela uma ampliação da atenção dedicada aos riscos climáticos. As ocorrências recentes de eventos extremos no Rio Grande do Sul contribuíram para aumentar a preocupação com vulnerabilidades relacionadas às cadeias produtivas, ao abastecimento de insumos, à continuidade operacional e ao planejamento. Nesse contexto, a gestão climática passa a assumir caráter estratégico, articulando ações de mitigação relacionadas à redução dos impactos e das emissões com iniciativas de adaptação voltadas à capacidade de responder às alterações das condições de operação.
Embora compartilhem princípios semelhantes, as duas organizações apresentam diferentes formas de estruturar suas respostas. Uma delas demonstra maior sistematização de indicadores, processos e instrumentos formais de gestão, enquanto a outra apresenta maior flexibilidade operacional e capacidade de adaptar suas práticas às características específicas do negócio. Essa diferença evidencia que não existe uma única configuração para incorporar sustentabilidade e gestão climática aos modelos de negócios. Os caminhos adotados dependem das características organizacionais, dos recursos disponíveis, das capacidades internas e das relações estabelecidas com o ambiente externo.
Ao mesmo tempo, o processo de transformação apresenta limitações. Entre as principais barreiras identificadas estão os investimentos necessários para determinadas tecnologias, as limitações de infraestrutura, a dependência de fornecedores, as exigências regulatórias e a dificuldade de integrar toda a cadeia de suprimentos aos objetivos de sustentabilidade. Essas condições demonstram que a transição para modelos de negócios mais sustentáveis não depende exclusivamente das decisões internas das empresas, sendo também influenciada pela capacidade de articulação com diferentes atores e pelas condições do ambiente em que as organizações estão inseridas.
Assim, o case evidencia uma trajetória na qual sustentabilidade, inovação e gestão climática passam a atuar de maneira integrada. A eficiência no uso de recursos, a circularidade, a inovação, o engajamento dos atores e a gestão dos riscos climáticos constituem diferentes frentes de uma mesma transformação organizacional, voltada simultaneamente à redução de impactos ambientais, à continuidade das operações, à geração de valor e ao fortalecimento da resiliência empresarial.
3. METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, desenvolvida por meio da estratégia de estudo de casos múltiplos. A investigação foi realizada com duas empresas industriais localizadas em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, selecionadas intencionalmente em razão da presença de iniciativas relacionadas à sustentabilidade, inovação e enfrentamento dos desafios associados às mudanças climáticas , dialogando com Gil (2024).
A escolha das organizações considerou a possibilidade de analisar diferentes configurações empresariais diante de um mesmo contexto regional. Embora apresentem características distintas quanto ao porte, segmento de atuação e estrutura produtiva, ambas desenvolvem práticas relacionadas à eficiência no uso de recursos, reaproveitamento de materiais, inovação, relacionamento com stakeholders e gestão de riscos climáticos, permitindo uma análise comparativa das experiências.
A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas, análise documental e observação , de acordo com Yin (2015). As entrevistas foram conduzidas com profissionais envolvidos em atividades relacionadas à sustentabilidade, à gestão organizacional e aos processos decisórios das empresas investigadas. A análise documental contemplou documentos institucionais, relatórios corporativos, materiais disponibilizados pelas organizações e outros registros relacionados às práticas de sustentabilidade, inovação e gestão climática. A observação permitiu acompanhar aspectos das práticas e dos processos organizacionais relacionados ao uso de recursos, às iniciativas de sustentabilidade e às condições de funcionamento das organizações.
As diferentes fontes de evidência foram utilizadas de forma complementar, permitindo confrontar as informações obtidas nas entrevistas com os registros documentais das organizações. Esse procedimento contribuiu para ampliar a consistência da análise e identificar convergências e diferenças entre os relatos e as evidências disponíveis.
Os dados foram organizados e analisados por meio de análise de conteúdo, considerando categorias relacionadas à sustentabilidade, inovação e gestão climática. A análise contemplou aspectos associados à eficiência energética e material, reaproveitamento e circularidade de recursos, inovação em produtos e processos, engajamento de colaboradores e stakeholders, mitigação, adaptação e gestão de riscos climáticos.
Inicialmente, foi realizada a análise individual de cada organização, buscando compreender sua trajetória, as iniciativas desenvolvidas, os recursos e capacidades mobilizados e os resultados observados. Posteriormente, realizou-se a análise comparativa dos casos, permitindo identificar convergências, diferenças, limitações e aprendizados decorrentes das experiências analisadas , dialogando com Bardin (2016).
A partir desse percurso, o case foi estruturado de modo a evidenciar a relação entre os desafios enfrentados pelas organizações, as soluções adotadas, os resultados alcançados e os aprendizados que podem contribuir para a replicação ou adaptação dessas experiências em outros contextos industriais.
4. SOLUÇÕES ADOTADAS E RESULTADOS ALCANÇADOS
A análise dos dois casos evidencia que a incorporação da sustentabilidade aos modelos de negócios ocorreu por diferentes frentes de atuação, envolvendo eficiência no uso de recursos, circularidade, fontes renováveis, inovação, relacionamento com stakeholders e fortalecimento da capacidade de resposta aos riscos climáticos. Embora as empresas apresentem trajetórias distintas, as iniciativas convergem para um mesmo movimento: integrar sustentabilidade às decisões operacionais e estratégicas, associando a redução de impactos ambientais à eficiência, à continuidade dos negócios e à geração de valor.
4.1 Eficiência, circularidade e uso de recursos
A eficiência no uso de energia e materiais constitui uma das principais frentes de transformação observadas nos dois casos. A Alfa prioriza melhorias contínuas nos processos produtivos, com atenção à redução de desperdícios e ao aumento da eficiência operacional. A Beta, por sua vez, combina a otimização dos processos com investimentos em tecnologias sustentáveis e ações voltadas à redução do consumo de recursos. Embora apresentem diferentes formas de implementação, ambas associam eficiência ambiental à melhoria do desempenho operacional e à redução de custos.
A mesma lógica é observada na gestão dos resíduos e no fechamento dos ciclos de recursos. A Alfa desenvolve ações de reciclagem e reaproveitamento de resíduos gerados no processo produtivo, enquanto a Beta apresenta programas mais amplos de reaproveitamento de materiais e fortalecimento da economia circular. Em ambos os casos, a circularidade contribui para reduzir a geração de resíduos e o consumo de recursos naturais, embora sua ampliação esteja condicionada às características dos materiais, à infraestrutura disponível e à capacidade de articulação com a cadeia de suprimentos.
A utilização de fontes renováveis também integra as soluções adotadas. A Alfa utiliza fontes renováveis de energia e promove a modernização gradual de seus processos, enquanto a Beta apresenta investimentos em energia fotovoltaica e outras iniciativas relacionadas à transição energética. Essas iniciativas ampliam a participação de fontes renováveis e reduzem a dependência de fontes convencionais, ao mesmo tempo em que demandam investimentos e condições técnicas para sua implementação.
Os resultados desse conjunto de iniciativas indicam que eficiência, circularidade, gestão de resíduos e fontes renováveis constituem importantes mecanismos de transformação dos processos industriais. Além de contribuírem para a redução dos impactos ambientais, essas práticas apresentam relação direta com redução de desperdícios, otimização operacional e uso mais racional dos recursos, favorecendo a integração entre sustentabilidade e desempenho empresarial.
4.2 Inovação, sustentabilidade e geração de valor
A inovação constitui outro eixo relevante das experiências analisadas. Na Alfa, a inovação está associada principalmente ao aprimoramento dos processos produtivos e dos produtos, buscando melhorias de desempenho e eficiência. Na Beta, a inovação sustentável apresenta maior integração com a estratégia de negócio, sendo utilizada como mecanismo de criação de valor e diferenciação competitiva. A diferença demonstra que iniciativas de inovação podem assumir distintas funções dentro dos modelos de negócios, desde melhorias incrementais nos processos até uma atuação mais diretamente vinculada à estratégia empresarial.
A dimensão humana também participa desse processo de transformação. A Alfa concentra suas ações sociais principalmente nos colaboradores, na segurança do trabalho e nas relações institucionais, enquanto a Beta apresenta maior abrangência, envolvendo colaboradores, comunidade e diferentes stakeholders. Nas duas organizações, o envolvimento dos atores internos e externos contribui para a implementação e continuidade das iniciativas de sustentabilidade.
O relacionamento com stakeholders apresenta igualmente características distintas. A Alfa mantém relações com clientes, fornecedores e comunidade, com ênfase na melhoria contínua dos processos. A Beta apresenta maior intensidade de diálogo com diferentes públicos e incorpora suas demandas às decisões estratégicas. Essa diferença sugere que o grau de participação dos stakeholders pode ampliar a capacidade de integrar sustentabilidade, inovação e estratégia.
Nesse contexto, a inovação não se limita à adoção de novas tecnologias. Ela também se manifesta na revisão de processos, na utilização de recursos, no desenvolvimento de produtos e na forma de relacionamento com diferentes atores. O resultado é uma aproximação entre sustentabilidade e geração de valor, ainda que com diferentes níveis de integração entre as organizações.
4.3 Gestão climática, adaptação e resiliência
A gestão dos riscos climáticos apresenta diferentes níveis de estruturação nos dois casos. A Alfa desenvolve práticas associadas à continuidade operacional e à melhoria dos processos diante das alterações nas condições de funcionamento. A Beta apresenta maior formalização das ações, com planejamento estratégico, gestão de riscos e iniciativas direcionadas ao fortalecimento da capacidade adaptativa.
A experiência recente do Rio Grande do Sul com eventos climáticos extremos ampliou a atenção das organizações para vulnerabilidades relacionadas à continuidade das operações, ao abastecimento de insumos e às cadeias de suprimentos. Nesse contexto, a adaptação climática passa a ser considerada não apenas como uma questão ambiental, mas também como uma condição para preservar a capacidade operacional e reduzir a exposição a interrupções.
Apesar de ambas demonstrarem preocupação com a resiliência, as práticas de adaptação apresentam menor nível de estruturação quando comparadas às iniciativas de eficiência, circularidade e mitigação. Essa diferença é particularmente relevante porque demonstra que a incorporação da sustentabilidade ao modelo de negócio não produz, automaticamente, o mesmo nível de maturidade em todas as dimensões da gestão climática.
Os casos indicam, portanto, uma trajetória na qual as práticas de mitigação estão mais consolidadas, enquanto a adaptação e o planejamento diante de cenários climáticos futuros constituem uma frente ainda em desenvolvimento. A principal contribuição dessas experiências está na demonstração de que eficiência e sustentabilidade podem constituir pontos de partida para uma agenda climática mais ampla, que posteriormente incorpore de forma mais estruturada a avaliação de riscos, a prevenção e a resiliência.
4.4 Comparação das trajetórias
A comparação evidencia duas trajetórias distintas de incorporação da sustentabilidade aos modelos de negócios. A Alfa apresenta uma configuração predominantemente operacional e processual, marcada pela eficiência, pela conformidade, pela redução de impactos e pela melhoria contínua dos processos. A Beta, por sua vez, apresenta uma configuração mais estratégica e integrada, articulando sustentabilidade, inovação, gestão de riscos, relacionamento com stakeholders e criação de valor.
Essas diferenças não significam que uma trajetória seja necessariamente superior à outra. Elas demonstram que a transformação dos modelos de negócios pode ocorrer a partir de diferentes pontos de partida e em diferentes níveis de integração. Enquanto a Alfa estrutura sua atuação principalmente a partir das melhorias operacionais, a Beta amplia a sustentabilidade para decisões estratégicas e mecanismos de geração de valor. O Quadro 01 a seguir apresenta a comparação entre os casos investigados.
Quadro 01 – Comparação entre os casos investigados Categoria de análise Alfa Beta Comparação Eficiência energética e material Prioriza melhorias contínuas nos processos produtivos, buscando eficiência operacional e redução de desperdícios.
Desenvolve ações voltadas à otimização dos processos, redução do consumo de recursos e investimentos em tecnologias sustentáveis.
Convergência: ambas adotam práticas de eficiência energética e material como estratégia para reduzir impactos ambientais e custos operacionais.
Fechamento dos ciclos de recursos Desenvolve ações de reciclagem e reaproveitamento de resíduos gerados no processo produtivo.
Destaca programas de reaproveitamento de materiais e fortalecimento da economia circular.
Convergência: ambas incorporam princípios da economia circular, diferenciando-se apenas quanto à amplitude das iniciativas implementadas.
Substituição por processos renováveis Utiliza fontes renováveis de energia e investe na modernização gradual dos processos produtivos.
Apresenta investimentos em energia fotovoltaica e outras iniciativas voltadas à transição energética.
Convergência: ambas reconhecem a utilização de energias renováveis como estratégia de redução dos impactos ambientais.
Gestão de resíduos Desenvolve práticas de gerenciamento, reciclagem e redução da geração de resíduos industriais.
Estrutura processos de segregação, reutilização e destinação ambientalmente adequada dos resíduos.
Convergência: as duas organizações demonstram gestão estruturada dos resíduos como componente da sustentabilidade empresarial.
Dimensão social Prioriza ações voltadas aos colaboradores, segurança no trabalho e relacionamento institucional.
Evidencia forte integração entre sustentabilidade, cultura organizacional, colaboradores e comunidade.
Divergência parcial: a Beta apresenta maior abrangência das ações sociais, enquanto a Alfa concentra esforços no ambiente organizacional e institucional.
Relacionamento com stakeholters Desenvolve relacionamento com clientes, fornecedores e comunidade, com foco na melhoria contínua dos processos.
Mantém diálogo permanente com diferentes públicos de interesse e incorpora suas demandas às decisões estratégicas.
Convergência: ambas reconhecem a importância dos stakeholders, diferenciando-se pela intensidade da participação desses atores na estratégia organizacional.
Inovação e competitividade A inovação está direcionada principalmente ao aprimoramento dos processos produtivos e dos produtos.
A inovação sustentável constitui elemento estratégico para criação de valor e diferenciação competitiva.
Divergência parcial: ambas inovam continuamente, porém a Beta demonstra maior integração entre inovação e sustentabilidade como estratégia de negócio.
Resiliência e adaptação climática Desenvolve práticas voltadas à continuidade operacional e à melhoria dos processos frente às mudanças do ambiente.
Evidência planejamento estratégico, gestão de riscos e fortalecimento da capacidade adaptativa.
Convergência: ambas demonstram preocupação com a resiliência organizacional, ainda que as práticas de adaptação climática apresentem diferentes níveis de maturidade.
Fonte: Dados da pesquisa (2026)
A comparação também demonstra que as duas trajetórias apresentam convergências importantes. Em ambas, eficiência no uso de recursos, gestão de resíduos, circularidade e utilização de fontes renováveis constituem elementos relevantes para a redução de impactos. A principal diferença está no grau de integração desses elementos à estratégia empresarial: na Alfa, predominam aplicações operacionais e processuais; na Beta, essas iniciativas estão mais diretamente articuladas à inovação, à gestão de riscos, à competitividade e à criação de valor. O Quadro 02 a seguir apresenta um resumo dos f atores que favorecem e condicionam a implementação das práticas .
Quadro 0 2: Fatores que favorecem e condicionam a implementação das práticas Elemento Favorece Limita Efeito predominante Eficiência energética/material Redução de consumo e custos Necessidade de investimentos Favorece Circularidade Reutilização e redução de resíduos Infraestrutura/cadeia Favorece com limitações Renováveis Redução da dependência de fontes convencionais Investimento inicial Favorece Inovação Novas soluções e processos Recursos e capacidade tecnológica Favorece com limitações Stakeholders Pressão, colaboração e conhecimento Baixa integração da cadeia Favorece com limitações Governança/riscos Planejamento e prevenção Estrutura ainda desigual Favorece a adaptação Investimentos Viabilização das práticas Recursos financeiros Pode favorecer ou limitar Fonte: Dados da pesquisa (2026)
O Quadro 0 2 evidencia que a implementação das soluções não ocorre de maneira linear. Os mesmos elementos que favorecem a transformação podem apresentar condições que limitam sua expansão. A eficiência energética e material, por exemplo, favorece a redução do consumo e dos custos, mas exige investimentos em equipamentos e processos. Da mesma forma, a circularidade amplia o reaproveitamento de recursos, mas depende de infraestrutura adequada e da articulação com fornecedores e demais integrantes da cadeia.
As barreiras identificadas podem ser agrupadas em internas e externas. Entre as internas estão a disponibilidade de recursos financeiros, infraestrutura, capacidades organizacionais e tecnológicas e definição de prioridades. Entre as externas destacam-se condições regulatórias e de mercado, fornecedores e integração da cadeia de suprimentos. A experiência dos casos demonstra, assim, que a transformação dos modelos de negócios depende tanto das decisões e capacidades internas quanto das condições do ambiente no qual as organizações estão inseridas.
5. BARREIRAS, APRENDIZADOS E POSSIBILIDADES DE REPLICAÇÃO
A experiência das duas empresas demonstra que a incorporação da sustentabilidade aos modelos de negócios não ocorre sem restrições. Entre as principais barreiras identificadas estão a necessidade de investimentos, limitações de infraestrutura e capacidade tecnológica, definição de prioridades internas, exigências regulatórias e dependência da integração com fornecedores e demais atores da cadeia de suprimentos. Essas condições podem limitar a implementação ou a ampliação de determinadas iniciativas, mesmo quando reconhecida sua relevância ambiental e estratégica.
Ao mesmo tempo, os casos evidenciam aprendizados relevantes para outras organizações industriais. A eficiência no uso de recursos constitui um ponto de partida viável por associar benefícios ambientais a ganhos operacionais e econômicos. A partir dessa base, iniciativas de circularidade, utilização de fontes renováveis, inovação e gestão de riscos podem ampliar progressivamente a integração da sustentabilidade ao modelo de negócio. Os casos também demonstram que não é necessário reproduzir uma configuração única: a trajetória pode ser adaptada ao porte, aos recursos, às capacidades e às características de cada organização.
Outro aprendizado refere-se à necessidade de aproximar mitigação e adaptação. Embora as iniciativas de eficiência, circularidade e redução de impactos estejam mais consolidadas, a experiência das empresas evidencia a importância de avançar na identificação de riscos climáticos, no planejamento preventivo e na continuidade operacional. A incorporação gradual desses elementos pode fortalecer a resiliência diante de eventos extremos e reduzir vulnerabilidades futuras.
As experiências analisadas apresentam, portanto, potencial de replicação, desde que as práticas sejam ajustadas às condições específicas de cada empresa. O principal aprendizado do case é que sustentabilidade, inovação e gestão climática podem ser incorporadas progressivamente aos modelos de negócios, começando por soluções operacionais com benefícios concretos e avançando para uma integração estratégica mais ampla. A replicação não depende da reprodução integral das iniciativas, mas da adaptação dos princípios e soluções às capacidades e aos desafios de cada contexto industrial.
6 . CONSIDERAÇÕES FINAIS
O case analisou como duas empresas industriais de Santa Cruz do Sul/RS incorporam sustentabilidade e inovação aos seus modelos de negócios diante dos desafios ambientais e climáticos. A experiência das organizações demonstra que essa incorporação ocorre por diferentes trajetórias, mas converge para a busca de maior eficiência no uso de recursos, redução de impactos, inovação, continuidade operacional e fortalecimento da capacidade de resposta aos riscos climáticos.
Os resultados evidenciam que práticas relacionadas à eficiência energética e material, circularidade, gestão de resíduos, utilização de fontes renováveis e inovação constituem importantes frentes de transformação dos processos e modelos de negócios. Ao mesmo tempo, a experiência revela que a gestão da adaptação climática ainda apresenta diferentes níveis de estruturação, indicando espaço para ampliar o planejamento, a gestão de riscos e as ações voltadas à resiliência organizacional.
A comparação entre os casos também demonstra que não existe uma única trajetória para incorporar sustentabilidade aos modelos de negócios. A Alfa apresenta uma configuração predominantemente operacional e processual, enquanto a Beta evidencia maior integração entre sustentabilidade, inovação, gestão de riscos, stakeholders e estratégia. As diferenças observadas reforçam que as soluções precisam considerar as características, capacidades e condições de cada organização.
Entre os principais aprendizados, destaca-se a possibilidade de iniciar a transformação por iniciativas que conciliem benefícios ambientais e operacionais e, progressivamente, ampliar sua integração às decisões estratégicas. A experiência também demonstra que a evolução das práticas depende da capacidade de superar barreiras relacionadas a investimentos, infraestrutura, tecnologia, regulação e articulação com a cadeia de valor.
Assim, o principal aprendizado do case é que sustentabilidade, inovação e gestão climática podem atuar de forma integrada na transformação dos modelos de negócios industriais. As experiências analisadas oferecem referências que podem ser adaptadas e replicadas por outras organizações, não pela reprodução das mesmas soluções, mas pela incorporação dos princípios e aprendizados às suas próprias condições, desafios e capacidades.
REFERÊNCIAS
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo/Laurence Bardin: tradução Luís Antero Reto, Augusto Pinheiro. São Paulo: Edições 70, 2016, 3º reimp. da 1º ed. de 2016, ISBN: 978-85-62938-04-7.
GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social / Antônio Carlos Gil. - [4ª Reimp.] - São Paulo: Atlas, 2024. ISBN 978-85-970-2098-4.
IPCC. 2023a. Summary For Policymakers, Climate Change 2023, Syntesis Report. Contribution of Working Goups I, II, and III, to the Fifth assessment report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. 2023a. Cambridge, UK, Campridge University Press . Disponível em: https://www.ipcc.ch/report/ar4/wg3/ . Acesso em 09/12/2025.
YIN, Robert K. Estudo de caso: planejamento e métodos [recurso eletrônico] / Robert K. Yin; [tradução: Cristhian Matheus Herrera]. – 5. ed – Porto Alegre: Bookman, 2015. ISBN 978-85-8260-232-4.
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