Plataforma Droneiros Voluntários: um modelo de voluntariado tecnológico para apoio à resposta a desastres
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Drones voluntários podem apoiar desastres, mas sua adoção depende menos do voo e mais de confiança, regras e coordenação institucional.
Resumo executivo
O artigo apresenta a plataforma Droneiros Voluntários, desenvolvida no âmbito da COPPE/UFRJ, como proposta para organizar a participação de pilotos civis de drones em ações de apoio à resposta a desastres. A pesquisa toma Petrópolis/RJ como contexto empírico e analisa a iniciativa a partir de entrevistas com gestores públicos, pilotos voluntários, parceiros técnicos e acadêmicos e representantes da sociedade civil.
Os resultados preliminares indicam que a institucionalização da plataforma exige mais do que infraestrutura digital: depende de legitimação política e operacional, governança e confiança, sustentabilidade de recursos e integração comunitária. O trabalho sustenta que o voluntariado tecnológico precisa ser articulado a procedimentos, responsabilidades, fluxos de informação e relações entre atores para que possa contribuir de modo organizado em situações de emergência.
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Entre para baixar o PDF registradoPLATAFORMA DRONEIROS VOLUNTÁRIOS: UM MODELO DE VOLUNTARIADO TECNOLÓGICO PARA APOIO À RESPOSTA A DESASTRES Resumo A recorrência de desastres socioambientais tem ampliado a necessidade de mecanismos capazes de articular recursos humanos, tecnológicos e institucionais durante as operações de resposta. Entre as tecnologias empregadas nesse contexto, os drones apresentam aplicações relacionadas ao mapeamento, à avaliação de danos e ao apoio às atividades de busca e salvamento, embora sua utilização em situações reais também envolva limitações técnicas, operacionais e institucionais (DAUD et al., 2022; KUCHARCZYK; HUGENHOLTZ, 2021). Paralelamente, a participação de voluntários em situações de emergência constitui um recurso relevante, mas sua incorporação às estruturas formais de resposta depende de mecanismos de coordenação, definição de responsabilidades e integração das informações produzidas (YAZDANI; HAGHANI, 2024). Este artigo apresenta a plataforma Droneiros Voluntários (DV), desenvolvida no âmbito da COPPE/UFRJ, como uma proposta de organização do voluntariado tecnológico voltado ao uso de drones em situações de desastre. A pesquisa possui caráter exploratório e abordagem qualitativa, tomando Petrópolis/RJ como contexto empírico. Foram realizadas oito entrevistas semiestruturadas com gestores do governo, pilotos voluntários, parceiros técnicos e acadêmicos e representantes da sociedade civil. A análise segue procedimentos da Grounded Theory Construtivista e encontra-se em seu primeiro ciclo, sem saturação teórica. Os resultados preliminares apontam quatro dimensões relevantes para a institucionalização da iniciativa: legitimação política e operacional; governança e confiança; sustentabilidade de recursos; e integração comunitária. Os achados sugerem que a institucionalização de uma plataforma desse tipo não depende apenas de sua infraestrutura tecnológica, mas também da definição de procedimentos, responsabilidades, recursos e formas de relacionamento entre os diferentes atores envolvidos.
Palavras-chave: voluntariado tecnológico; drones; gestão de desastres; inovação social; plataformas digitais.
1. INTRODUÇÃO
A ocorrência de desastres associados a eventos naturais e extremos impõe desafios à capacidade de preparação, resposta e recuperação das organizações responsáveis pela gestão de riscos. Nessas situações, a disponibilidade de informações atualizadas sobre o território pode contribuir para o reconhecimento das áreas afetadas e para o planejamento das ações de resposta. A obtenção dessas informações, contudo, pode ser dificultada por danos à infraestrutura, interrupção de vias de acesso e condições inseguras para as equipes de campo.
Nesse contexto, os Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas, ou drones, passaram a integrar o conjunto de tecnologias utilizadas em atividades relacionadas à gestão de desastres. Revisões da literatura identificam aplicações em mapeamento e avaliação de danos, busca e salvamento, transporte e treinamento (DAUD et al., 2022). O sensoriamento remoto realizado por pequenos drones também tem sido empregado em diferentes fases do ciclo de gestão de riscos, embora a literatura ainda apresente concentração de estudos em determinados tipos de desastres, localidades e aplicações, indicando a necessidade de ampliar as pesquisas em situações urbanas e em contextos de resposta imediata (KUCHARCZYK; HUGENHOLTZ, 2021).
A utilização de drones, entretanto, não deve ser compreendida apenas como uma questão de capacidade técnica do equipamento. Estudos voltados à utilização de sistemas aéreos não tripulados em emergências destacam a necessidade de compatibilizar rapidez, segurança, confiabilidade dos dados e qualidade dos produtos cartográficos com as necessidades das equipes responsáveis pela resposta (GONZÁLEZ et al., 2021). Também permanecem desafios relacionados à regulamentação, processamento e segurança dos dados, capacidade operacional e integração da tecnologia às estruturas existentes (KOVACS et al., 2021).
Outro componente relevante desse processo é a participação de voluntários. Em grandes desastres, os recursos disponíveis para resposta profissional podem ser insuficientes diante do aumento repentino da demanda. Por essa razão, diferentes sistemas de resposta recorrem a voluntários, cuja contribuição, entretanto, precisa ser organizada para evitar conflitos de atribuições, problemas de comunicação e dificuldades na distribuição das tarefas (YAZDANI; HAGHANI, 2024). Estudos sobre a integração de voluntários espontâneos também destacam a importância de estabelecer formas de orientação e coordenação capazes de articular essa participação às estruturas profissionais de emergência (ANDERSEN et al., 2024).
A combinação entre drones e voluntariado cria, portanto, uma questão que ultrapassa a adoção da tecnologia. O problema passa a ser como incorporar pessoas, equipamentos e informações provenientes de fora das estruturas formais de resposta aos processos institucionais existentes. A questão envolve não apenas eficiência operacional, mas também legitimidade, responsabilidade, confiança e disponibilidade de recursos.
É nesse contexto que se insere a plataforma Droneiros Voluntários (DV) , desenvolvida no âmbito da COPPE/UFRJ. A iniciativa foi concebida para organizar a participação de pilotos civis de drones em atividades de apoio à resposta a desastres, estabelecendo um mecanismo de cadastro, qualificação, acionamento e acompanhamento dos voluntários.
A problemática investigada neste trabalho não está, portanto, restrita ao desenvolvimento de uma ferramenta digital. O interesse está em compreender as condições necessárias para que o voluntariado tecnológico possa ser incorporado de maneira organizada às estruturas responsáveis pela resposta a desastres.
Essa perspectiva é compatível com abordagens que compreendem as organizações a partir das relações estabelecidas com diferentes grupos e atores. Na perspectiva dos stakeholders, os resultados de uma iniciativa dependem das relações mantidas com grupos que podem afetar ou ser afetados por suas atividades (FREEMAN, 2010). Mitchell, Agle e Wood (1997), por sua vez, propõem considerar atributos como poder, legitimidade e urgência na análise da relação entre organizações e stakeholders. Em uma iniciativa que envolve governo, voluntários, comunidade, universidades e empresas, essas relações assumem importância particular.
A Teoria da Dependência de Recursos também oferece uma perspectiva pertinente. Pfeffer e Salancik (1978) argumentam que as organizações dependem de recursos provenientes de seu ambiente e que essas dependências influenciam suas relações e decisões. No caso estudado, diferentes atores controlam recursos necessários à operação: órgãos públicos possuem autoridade institucional e capacidade de coordenação; voluntários disponibilizam tempo, equipamentos e conhecimento; universidades e parceiros técnicos oferecem conhecimento e infraestrutura; e comunidades fornecem conhecimento sobre o território e experiências relacionadas aos desastres.
Diante desse problema, o objetivo deste artigo é apresentar a plataforma Droneiros Voluntários e examinar, a partir das percepções de atores envolvidos no contexto de desastres em Petrópolis/RJ, aspectos que podem favorecer ou dificultar sua institucionalização .
O trabalho encontra-se em estágio inicial de investigação. Assim, os resultados apresentados são preliminares e não pretendem estabelecer um modelo definitivo de institucionalização da plataforma.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Drones na gestão de desastres A utilização de drones na gestão de desastres tem crescido à medida que os equipamentos se tornaram mais acessíveis e passaram a incorporar sensores e sistemas de processamento capazes de produzir informações georreferenciadas. A literatura identifica aplicações principalmente em mapeamento, avaliação de danos, busca e salvamento e transporte de recursos (DAUD et al., 2022).
Entre essas aplicações, o mapeamento apresenta particular relevância. Pequenos drones podem produzir imagens de áreas afetadas em escalas e resoluções adequadas a determinadas atividades de reconhecimento territorial. A revisão realizada por Kucharczyk e Hugenholtz (2021), envolvendo 635 estudos, mostra a expansão desse tipo de sensoriamento remoto em pesquisas relacionadas a desastres.
A vantagem potencial da tecnologia está associada à capacidade de realizar levantamentos em locais que podem ser de difícil acesso às equipes terrestres. Em operações de emergência, a produção rápida de informações pode contribuir para o reconhecimento das condições do território e para o planejamento das atividades (GONZÁLEZ et al., 2021).
Entretanto, a literatura também mostra que a presença do equipamento não garante a efetividade da operação. Questões relacionadas à autonomia das aeronaves, condições meteorológicas, processamento dos dados, segurança, regulamentação e disponibilidade de operadores qualificados podem limitar a utilização dos drones (KOVACS et al., 2021). Além disso, a literatura ainda apresenta predominância de estudos experimentais e simulados, o que reforça a necessidade de pesquisas sobre aplicações em situações reais de desastre (DAUD et al., 2022).
Essa constatação desloca a discussão da tecnologia isoladamente para a forma como ela é incorporada aos processos de resposta. O problema passa a envolver os procedimentos utilizados para solicitar o voo, definir responsabilidades, produzir os dados e incorporá-los às decisões das equipes responsáveis.
2.2 Voluntariado e coordenação em situações de desastre O voluntariado constitui uma fonte adicional de capacidade para os sistemas de resposta, especialmente quando a demanda provocada pelo desastre ultrapassa os recursos disponíveis às organizações profissionais. Entretanto, a utilização desse recurso depende de mecanismos de coordenação.
Yazdani e Haghani (2024) destacam que o volume e a velocidade das informações produzidas durante emergências tornam complexa a tomada de decisão e defendem a integração dos voluntários a sistemas estruturados de apoio à decisão. Os autores ressaltam a necessidade de combinar gestão de dados, processamento, interface e decisão, além de considerar os diferentes stakeholders envolvidos na disponibilização de recursos e informações.
Essa questão também aparece nos estudos sobre voluntários espontâneos. Andersen et al. (2024) observam que a contribuição desses participantes pode ser relevante para a resposta, mas sua integração às estruturas profissionais exige orientação e coordenação.
No caso de voluntários que possuem conhecimentos ou equipamentos especializados, a questão assume uma dimensão adicional. Não basta saber quem está disponível; é necessário saber quais recursos possui, quais atividades pode realizar, onde está localizado e como pode ser acionado.
Uma plataforma digital pode atuar nesse nível organizacional, mas seu funcionamento depende de regras e acordos que extrapolam o software. A tecnologia pode registrar informações e facilitar o contato, mas a definição de quem autoriza a atividade, quem responde pelo resultado e como o produto gerado será utilizado continua sendo uma questão institucional.
2.3 Stakeholders e dependência de recursos A plataforma Droneiros Voluntários envolve atores com diferentes interesses, recursos e responsabilidades. A abordagem dos stakeholders permite analisar essas relações sem restringir a organização a uma única categoria de usuário.
Freeman (2010) propõe uma visão das organizações que considera os grupos e indivíduos que podem afetar ou ser afetados pela realização de seus objetivos. Essa abordagem é particularmente útil em iniciativas de caráter interorganizacional, nas quais diferentes atores participam da criação e entrega de valor.
Mitchell, Agle e Wood (1997) acrescentam que os stakeholders podem apresentar diferentes níveis de saliência em função de atributos como poder, legitimidade e urgência. Em uma situação de desastre, por exemplo, a urgência da demanda pode alterar a prioridade atribuída aos diferentes atores e informações.
A Teoria da Dependência de Recursos complementa essa perspectiva ao considerar que organizações dependem de recursos controlados por outros atores (PFEFFER; SALANCIK, 1978). A relação entre Defesa Civil e voluntários pode ser analisada sob esse enfoque: o órgão público dispõe de autoridade e capacidade de coordenação, enquanto os voluntários podem disponibilizar equipamentos, conhecimento e mão de obra especializada.
A cooperação entre esses atores, portanto, não decorre simplesmente da existência de interesses comuns. Ela depende da capacidade de estabelecer relações suficientemente estáveis para permitir o intercâmbio dos recursos necessários à operação.
2.4 Sustentabilidade de iniciativas tecnológicas A continuidade de uma plataforma voltada à finalidade social também depende da existência de mecanismos que permitam sua manutenção. A literatura sobre modelos de negócios sustentáveis procura compreender justamente como iniciativas podem criar e entregar valor considerando simultaneamente dimensões econômicas, ambientais e sociais (BOCKEN et al., 2014).
No caso de uma plataforma de voluntariado, a ausência de remuneração dos participantes não significa ausência de custos. Equipamentos precisam ser adquiridos e mantidos, sistemas digitais precisam ser hospedados e atualizados e atividades de capacitação e coordenação demandam recursos.
Por essa razão, a sustentabilidade deve ser tratada como uma questão empírica da iniciativa e não como uma característica automaticamente decorrente de seu caráter voluntário. No caso da DV, as alternativas de financiamento apresentadas no projeto constituem possibilidades que ainda precisam ser avaliadas na prática.
3. A PLATAFORMA DRONEIROS VOLUNTÁRIOS
3.1 Conceito e proposta A plataforma Droneiros Voluntários foi concebida como uma infraestrutura digital para organizar a participação de pilotos civis de drones em atividades de apoio à resposta a desastres.
Sua proposta consiste em estabelecer uma relação previamente organizada entre voluntários e órgãos demandantes. O voluntário cadastra informações sobre seu perfil, capacitações e equipamentos, enquanto o órgão responsável pela resposta pode utilizar essas informações para identificar participantes disponíveis.
A plataforma foi estruturada em torno de quatro processos principais: cadastro e validação; abertura do pedido; execução da atividade; e encerramento e avaliação.
No primeiro processo, são registradas as informações do voluntário e do equipamento. Também está prevista a associação do cadastro a requisitos de capacitação e certificação.
No segundo, o órgão demandante registra uma solicitação de apoio. A plataforma permite identificar voluntários que atendam aos critérios definidos e estejam disponíveis para a atividade.
No terceiro, o voluntário realiza a atividade de campo. Na configuração atual da plataforma, os dados coletados são entregues diretamente ao órgão demandante, sem que o sistema necessariamente armazene ou processe os arquivos.
Essa característica é relevante para delimitar o estágio atual do projeto. A DV funciona principalmente como mecanismo de organização do relacionamento e do acionamento entre os participantes, e não como um sistema completo de processamento e gestão dos dados geoespaciais.
No quarto processo, a missão é encerrada e pode ser realizada uma avaliação recíproca entre o voluntário e o órgão demandante.
3.2 Proposta de valor A proposta de valor da plataforma pode ser observada a partir de três grupos principais.
Para os órgãos responsáveis pela resposta, a iniciativa procura facilitar o acesso a uma rede de operadores previamente cadastrados, reduzindo a necessidade de localizar voluntários de forma improvisada durante uma emergência.
Para os voluntários, a plataforma oferece um canal formal de participação, com registro de capacitações, equipamentos e histórico de atividades.
Para a sociedade, a contribuição esperada está associada à possibilidade de ampliar a capacidade de obtenção de informações sobre áreas afetadas.
É importante, contudo, diferenciar proposta de valor de resultado comprovado. Nesta etapa da pesquisa, não existem dados suficientes para afirmar que a plataforma tenha reduzido efetivamente o tempo de resposta, aumentado a quantidade de áreas mapeadas ou produzido ganhos mensuráveis de eficiência.
4. METODOLOGIA
A pesquisa possui caráter exploratório e abordagem qualitativa. O contexto empírico é constituído pela iniciativa Droneiros Voluntários e pelas relações estabelecidas entre seus participantes no município de Petrópolis/RJ.
A utilização de estudo de caso é adequada quando se pretende investigar um fenômeno contemporâneo considerando suas relações com o contexto em que ocorre (YIN, 2018). Nesse trabalho, o caso é constituído pela implantação e organização da plataforma de voluntariado tecnológico, enquanto as entrevistas são utilizadas para compreender as percepções dos atores envolvidos.
A análise dos dados é orientada pela Grounded Theory Construtivista , conforme proposta por Charmaz (2006). Essa abordagem considera que categorias analíticas são construídas a partir da interação entre pesquisador, participantes e dados, valorizando os significados atribuídos pelos sujeitos às suas experiências.
4.1 Participantes Foram realizadas oito entrevistas semiestruturadas, distribuídas em quatro segmentos:
Segmento Código Número Gestores do governo G Pilotos e operadores voluntários DV Parceiros técnicos e acadêmicos PT Sociedade civil e lideranças comunitárias SC Total
Os gestores do governo incluem representantes da Defesa Civil e de Secretarias Municipais. O grupo de voluntários é formado por pilotos civis relacionados à iniciativa. Os parceiros técnicos e acadêmicos incluem desenvolvedores de geotecnologias e pesquisadores. A sociedade civil é representada por moradores e representantes de associações de bairro afetadas por desastres.
O recrutamento utilizou amostragem por bola de neve, a partir dos contatos estabelecidos com a Defesa Civil de Petrópolis e com a rede de pilotos voluntários.
4.2 Procedimentos de análise As entrevistas foram submetidas a um primeiro ciclo de codificação, inspirado nos procedimentos descritos por Charmaz (2006). A análise envolveu codificação inicial e posterior agrupamento de códigos com maior capacidade explicativa.
O software Taguette foi utilizado para organização do material e rastreabilidade dos códigos.
A análise encontra-se em estágio inicial. Não foi declarada saturação teórica e, consequentemente, as categorias apresentadas não devem ser tratadas como categorias teóricas definitivas.
Além das entrevistas, foram considerados documentos relacionados à concepção e ao funcionamento da plataforma. Essa combinação permite confrontar as características previstas para o sistema com as percepções dos participantes.
5. RESULTADOS PRELIMINARES
A análise inicial permitiu agrupar os códigos em quatro dimensões: legitimação política e operacional; governança e confiança; sustentabilidade de recursos; e integração comunitária .
Essas dimensões representam o estado atual da análise e poderão ser modificadas nas etapas seguintes.
Tabela 1 – Dimensões preliminares identificadas Dimensão Códigos focalizados Evidência empírica Legitimação política e operacional Protocolos formais; respaldo legal; validação de laudos; cadeia de custódia “O drone do voluntário ajuda muito na ponta, mas se a imagem não tiver um carimbo técnico e uma cadeia de custódia clara, o gestor público não pode assinar o laudo.” (G01) Governança e confiança Ruído comunicacional; sobreposição de dados; transparência; integração “A gente não quer invadir o espaço da Defesa Civil. O que a plataforma faz é filtrar e organizar o dado bruto para entregar uma informação pronta sem poluir a rádio da operação.” (PT02) Sustentabilidade de recursos Desgaste de equipamento; custos de servidor; continuidade do voluntariado; apoio híbrido “Colocar o drone no ar no dia do desastre todo mundo quer. Mas e a manutenção do equipamento que queimou na chuva? E a licença do software de fotogrametria? Isso não se sustenta só com boa vontade.” (DV02) Integração comunitária Resiliência local; vigilância e proteção; pertencimento cidadão; transparência “A comunidade precisa saber que o drone está ali para mapear a barreira e proteger a gente, e não para fiscalizar a casa das pessoas. A plataforma precisa ter esse diálogo aberto.” (SC01) Fonte: Dados da pesquisa (2026).
5.1 Legitimação política e operacional A primeira dimensão está relacionada à incorporação dos resultados produzidos pelos voluntários aos procedimentos dos órgãos responsáveis pela resposta.
O relato de G01 indica que a utilidade da imagem aérea não é suficiente para que ela seja utilizada em determinados procedimentos oficiais. A preocupação apresentada envolve a origem da informação, sua confiabilidade e a possibilidade de atribuir responsabilidade ao conteúdo utilizado.
Esse resultado é coerente com a literatura que chama atenção para a necessidade de compatibilizar a rapidez da coleta realizada por drones com requisitos de confiabilidade, segurança e utilização operacional dos dados (GONZÁLEZ et al., 2021).
No caso da DV, o cadastramento e a qualificação dos voluntários podem contribuir para reduzir parte da incerteza sobre quem está realizando a atividade. Contudo, os dados obtidos nesta etapa não permitem afirmar que esses mecanismos sejam suficientes para resolver questões de responsabilidade ou validade das informações.
5.2 Governança e confiança A segunda dimensão refere-se à coordenação dos diferentes atores e ao fluxo de informações durante as operações.
A fala de PT02 revela uma preocupação com a transformação do dado produzido pelo voluntário em uma informação que possa ser utilizada pela equipe responsável sem gerar sobrecarga adicional de comunicação.
Esse ponto aproxima-se da discussão apresentada por Yazdani e Haghani (2024), segundo os quais sistemas destinados à integração de voluntários precisam considerar não apenas a disponibilização de dados, mas também as camadas de gestão, processamento, interface e decisão.
Nesse sentido, o desafio para a DV não está apenas em conectar voluntários aos órgãos públicos. É necessário definir como as informações serão recebidas, organizadas e utilizadas.
A confiança também aparece como uma questão relevante. O órgão público precisa confiar na origem e na qualidade das informações, enquanto o voluntário precisa confiar que sua participação ocorrerá dentro de condições claras de coordenação e responsabilidade.
5.3 Sustentabilidade de recursos A terceira dimensão surgiu principalmente nas entrevistas com os pilotos voluntários.
O relato de DV02 evidencia que o custo da atividade não desaparece quando o trabalho é voluntário. Equipamentos podem sofrer danos, softwares podem exigir licenças e a participação em operações envolve tempo e deslocamento.
A questão dialoga com a literatura sobre modelos de negócios sustentáveis, que considera a necessidade de criar mecanismos capazes de manter a entrega de valor ao longo do tempo (BOCKEN et al., 2014).
No caso da DV, existem alternativas de financiamento previstas no projeto, incluindo parcerias, patrocínios e projetos de consultoria. Entretanto, essas alternativas ainda não foram testadas. Portanto, não é possível classificá-las como um modelo de sustentabilidade validado.
5.4 Integração comunitária A quarta dimensão apareceu nas entrevistas com representantes da sociedade civil.
O relato de SC01 chama atenção para a possibilidade de diferentes interpretações sobre a presença de drones em áreas residenciais. O mesmo equipamento pode ser percebido como instrumento de proteção ou como mecanismo de vigilância.
Essa questão é particularmente relevante porque o uso de drones envolve coleta de imagens sobre espaços ocupados por pessoas. A literatura sobre drones em contextos humanitários e de desastre aponta que questões éticas, privacidade, segurança dos dados e aceitação social constituem barreiras à adoção mais ampla da tecnologia (KOVACS et al., 2021).
No caso estudado, a integração comunitária ainda aparece como um componente pouco desenvolvido da iniciativa. A continuidade da investigação deverá aprofundar como os moradores compreendem a finalidade da coleta e quais mecanismos poderiam ser utilizados para comunicar o uso dos dados.
6. DISCUSSÃO
Os resultados preliminares indicam que o principal desafio da plataforma não está na conexão técnica entre voluntário e órgão público, mas na construção das condições institucionais necessárias para que essa relação funcione durante uma situação de emergência .
A primeira dimensão, relacionada à legitimação, mostra que a produção de uma imagem não é equivalente à produção de uma informação automaticamente utilizável. A incorporação do material às atividades oficiais depende de critérios, responsabilidades e procedimentos.
Essa questão pode ser analisada pela perspectiva dos stakeholders. A DV reúne atores que ocupam posições diferentes no processo de resposta e possuem diferentes recursos e níveis de influência. Freeman (2010) destaca a importância de compreender as organizações a partir dessas relações, enquanto Mitchell, Agle e Wood (1997) mostram que poder, legitimidade e urgência influenciam a saliência dos diferentes stakeholders.
No caso analisado, os gestores públicos possuem maior autoridade institucional para decidir sobre a utilização das informações. Os voluntários possuem recursos técnicos e materiais que podem ser relevantes para a operação. As comunidades possuem conhecimento sobre o território e são diretamente afetadas pelas decisões tomadas durante e após os desastres.
A Teoria da Dependência de Recursos permite acrescentar outra dimensão a essa análise. Pfeffer e Salancik (1978) argumentam que as organizações dependem de recursos que estão distribuídos no ambiente. Essa dependência cria relações de interdependência e pode influenciar a forma como os atores estruturam suas relações.
A DV pode ser interpretada, nesse sentido, como um mecanismo para organizar uma relação que já possui potencial de interdependência. A Defesa Civil pode necessitar de recursos especializados que os voluntários possuem, enquanto os voluntários dependem de canais institucionais para que seus recursos possam ser utilizados de maneira organizada.
Isso não significa, contudo, que a plataforma elimine as relações de poder ou as assimetrias entre os atores. A tecnologia apenas cria uma infraestrutura para a interação. A forma como essa infraestrutura será utilizada depende das regras institucionais estabelecidas.
A segunda dimensão, governança e confiança, reforça essa interpretação. A literatura sobre integração de voluntários mostra que a coordenação não pode ser reduzida ao simples cadastramento das pessoas disponíveis (YAZDANI; HAGHANI, 2024). É necessário estabelecer mecanismos que permitam associar recursos, tarefas, informações e decisões.
Essa constatação ajuda a explicar uma característica importante da DV: o sistema não precisa necessariamente controlar todo o processo de produção e armazenamento dos dados para desempenhar uma função relevante. Seu papel pode estar na organização dos participantes e na criação de um fluxo previsível de acionamento.
A sustentabilidade constitui outra questão. A literatura sobre modelos de negócios sustentáveis mostra que iniciativas com objetivos sociais também precisam considerar os mecanismos utilizados para criar e manter valor (BOCKEN et al., 2014). No caso da plataforma, a participação voluntária reduz alguns custos, mas não elimina os custos associados à infraestrutura, capacitação, equipamentos e coordenação.
Finalmente, a dimensão comunitária mostra que a legitimidade da tecnologia também depende da forma como ela é percebida pelas pessoas afetadas. A utilização de drones pode gerar benefícios operacionais, mas a coleta de imagens em áreas residenciais exige atenção às questões de privacidade, finalidade e comunicação com os moradores.
As quatro dimensões identificadas apresentam relações entre si, mas os dados disponíveis ainda não permitem afirmar que constituam um modelo teórico consolidado. A interpretação mais adequada neste momento é que elas representam diferentes problemas que precisam ser considerados na institucionalização de uma plataforma de voluntariado tecnológico.
Essa ressalva é importante porque a pesquisa ainda está em seu primeiro ciclo de análise. A ampliação da amostra e o aprofundamento da codificação poderão confirmar, modificar ou substituir as categorias atualmente identificadas.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo apresentou a plataforma Droneiros Voluntários e discutiu os primeiros resultados de uma investigação sobre os desafios associados à institucionalização do voluntariado tecnológico no contexto da resposta a desastres.
A partir de oito entrevistas realizadas com representantes do governo, pilotos voluntários, parceiros técnicos e acadêmicos e sociedade civil, foram identificadas quatro dimensões preliminares: legitimação política e operacional; governança e confiança; sustentabilidade de recursos; e integração comunitária.
Os resultados indicam que a organização do voluntariado tecnológico envolve questões que ultrapassam o desenvolvimento da plataforma digital. A existência de operadores e equipamentos disponíveis não garante sua utilização em uma operação oficial. É necessário estabelecer procedimentos para o acionamento, definir responsabilidades, organizar o fluxo de informações e criar condições para a continuidade da participação voluntária.
A principal contribuição desta etapa da pesquisa está em evidenciar essas questões a partir de diferentes perspectivas presentes no contexto estudado. A plataforma pode ser compreendida como uma tentativa de estruturar uma relação entre recursos que se encontram distribuídos entre diferentes atores: autoridade e coordenação institucional no governo; equipamentos e conhecimento técnico entre os voluntários; conhecimento especializado entre universidades e parceiros; e conhecimento territorial nas comunidades.
Do ponto de vista teórico, a combinação da perspectiva dos stakeholders com a Teoria da Dependência de Recursos permite interpretar a plataforma a partir das relações entre os participantes e da distribuição dos recursos necessários à operação. A literatura sobre drones e voluntariado reforça, por sua vez, que os ganhos associados à tecnologia dependem de sua integração aos processos de resposta (DAUD et al., 2022; YAZDANI; HAGHANI, 2024).
Os resultados não permitem, contudo, afirmar que a plataforma já constitua um modelo validado, sustentável ou replicável. A pesquisa conta atualmente com oito participantes e encontra-se no primeiro ciclo de análise, sem saturação teórica. As categorias apresentadas devem, portanto, ser entendidas como resultados preliminares.
A continuidade da pesquisa deverá ampliar a coleta de dados, aprofundar a análise das categorias identificadas e acompanhar a utilização da plataforma em situações concretas. Também será necessário avaliar as alternativas de sustentabilidade financeira e institucional e investigar de maneira mais sistemática a percepção das comunidades sobre a coleta e utilização de imagens aéreas.
Outra etapa importante será comparar a experiência de Petrópolis com iniciativas desenvolvidas em outros municípios e contextos de desastre. Somente a partir dessa comparação será possível avaliar com maior segurança quais elementos da experiência podem ser transferidos para outros contextos.
REFERÊNCIAS
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