Cooperar para competir em um mundo fragmentado: a resiliência criativa como estratégia de liderança coletiva na Amazônia
Ana Keil prestígio (1)
Avaliação por modelos + Supervisão Editorial.
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Registro já válido e público — número, score e prova congelados. Em revisão complementar do comitê; um endosso o torna definitivo, e o número não muda.
Na Amazônia ribeirinha, líderes aprendem que resistir à crise depende menos do herói solitário e mais da força prática do “nós”.
Resumo executivo
O trabalho analisa o desenvolvimento da Resiliência Criativa em empreendedores sociais ribeirinhos da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro, na Amazônia brasileira, a partir de uma intervenção educativa de 4 horas baseada em aprendizagem experiencial e Serious Play®. Para adaptar a metodologia ao território, o estudo substitui blocos de LEGO® por um kit ecológico com brinquedos de Miriti, madeira, hastes de chenille e bases hexagonais, além de empregar inteligência artificial para calibrar a linguagem das atividades ao repertório cultural local.
A pesquisa, conduzida com 30 empreendedores sociais em Tumbira e antecedida por uma prova de conceito com 9 especialistas, identifica padrões qualitativos de autorregulação, adaptação e colaboração diante de crises climáticas, logísticas e econômicas. O estudo conclui que, em contextos de alta vulnerabilidade, a resiliência opera como prática coletiva e territorializada, e a partir dos resultados observados, após a pesquisa concluída, sugere um framework conceitual denominado, neste artigo como RE-CREATE para futuras investigações e validação em comunidades tradicionais e ambientes corporativos.
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COOPERAR PARA COMPETIR EM UM
MUNDO FRAGMENTADO: A RESILIÊNCIA
CRIATIVA COMO ESTRATÉGIA DE
LIDERANÇA COLETIVA NA AMAZÔNIA
Submissão de Estudo de Caso de Intervenção Tema: Cooperar para Competir em um Mundo Fragmentado RESUMO: Em um cenário global caracterizado por pressões climáticas extremas, rupturas logísticas e fragmentação socioeconômica, as organizações demandam competências de liderança que transcendam o planejamento operacional rígido. Este artigo analisa o desenvolvimento da Resiliência Criativa, concebida como a capacidade de responder a disrupções e crises por meio da inovação, imaginação prática e colaboração, a partir de uma intervenção educativa realizada junto a empreendedores sociais ribeirinhos na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, na Amazônia brasileira. O estudo, estruturado sob o desenho metodológico de uma Avaliação de Intervenção de Natureza Qualitativa e Exploratória, analisa os resultados de um workshop de imersão de 4 horas fundamentado na aprendizagem experiencial e no método Serious Play®. A intervenção utilizou um kit ecológico e escalável baseado no Miriti (conhecido localmente como a "árvore da vida") em substituição aos blocos de LEGO®, além de calibração de linguagem assistida por inteligência artificial para assegurar a a melhor comunicação com os participantes. Os resultados qualitativos revelam trajetórias emocionais consistentes de superação (choque inicial, transição ativa sob restrição e empoderamento) e evidenciam a eficácia do descolamento entre a identidade do líder e a crise do empreendimento. O estudo conclui que a resiliência em contextos de vulnerabilidade opera como uma prática intrinsecamente coletiva ("nós" em detrimento do "eu"). Por fim, discute-se o potencial de extrapolação conceitual dessas descobertas de base comunitária para o ambiente de liderança corporativa global, apontando os caminhos e a necessidade crítica de pesquisas empíricas futuras.
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1. Introdução: Liderança, Estratégia e a Necessidade da Resiliência
Criativa O ambiente socioeconômico contemporâneo impõe pressões sem precedentes sobre líderes e organizações. Rupturas sistêmicas, mudanças climáticas aceleradas e fragmentações de mercado evidenciam a obsolescência de modelos estratégicos estáticos baseados em previsibilidade linear. Conforme reportado pelo Fórum Econômico Mundial em seu relatório Future of Jobs (2025), competências cognitivas e socioemocionais voltadas à flexibilidade, resolução de problemas complexos, pensamento criativo e resiliência figuram como os atributos de maior crescimento e relevância estratégica para a liderança global nas próximas décadas.
Contudo, a literatura contemporânea de gestão exige um refinamento do conceito de resiliência. Tradicionalmente entendida como a mera capacidade física ou psicológica de absorver impactos e retornar ao estado original de equilíbrio, a resiliência em ambientes de alta incerteza necessita de um componente transformativo e inovador. Surge, assim, o construto da Resiliência Criativa, definido como a capacidade individual e coletiva de não apenas tolerar ou resistir a crises, mas de utilizar a adversidade como um catalisador para a reinvenção estratégica, a co-criação de valor e a inovação.
Na busca por investigar os mecanismos de desenvolvimento desse construto em cenários reais de extrema pressão, esta pesquisa, patrocinada pela Imagination Lab Foundation e apoiada pela Fundação Dom Cabral (FDC), realizou um estudo empírico com empreendedores sociais na Amazônia brasileira. Esse território representa um laboratório vivo de complexidade logística e climática. Liderar e gerir negócios sob a volatilidade das secas severas e o isolamento geográfico exige competências adaptativas extraordinárias.
Compreendendo que abordagens pedagógicas ativas baseadas na imaginação e no lúdico (play-based learning) criam ambientes protegidos para a experimentação de adultos, esta investigação buscou responder à seguinte pergunta científica: De que forma metodologias inovadoras como o Serious Play® baseadas na imaginação e no brincar estruturado podem contribuir para o fortalecimento da resiliência criativa e habilidades adaptativas entre empreendedores sociais na Amazônia brasileira?
2. Fundamentação Teórica: Conexões Conceituais e a Diferenciação do
Construto O suporte teórico desta investigação ancora-se em uma rede de conexões interdisciplinares que ligam o empreendedorismo, a psicologia do desenvolvimento, a teoria do brincar e as metodologias de facilitação estratégica.
O Contexto Empreendedor e a Resiliência Processual O empreendedorismo é caracterizado por altos níveis de incerteza, riscos assimétricos e fracassos inevitáveis. Para além de uma visão estática de traços de personalidade inatos, as Submissão ao Evento Acadêmico-Executivo - Página 3 ciências sociais e a gestão vêm consolidando a resiliência como um processo dinâmico de interações entre o indivíduo e seu contexto, perspectiva que encontra sustentação na revisão de Metzi e Malissa (2008). Estes autores categorizam o fenômeno sob três prismas: como traço de personalidade, como desfecho adaptativo e, primordialmente, como um processo dinâmico de interações entre o indivíduo e seu contexto. Enquanto as abordagens baseadas em traços enfatizam mecanismos de controle interno — vinculados ao modelo de Lazarus e Folkman (1984) — a vertente processual de Luthar (2003) postula que a resiliência deve ser inferida através da manifestação de competências em cenários de adversidade.
No âmbito coletivo, Simonen et al. (2020) ampliam esse conceito ao propor a Resiliência Criativa como a capacidade de agentes econômicos e sociais de uma determinada região não apenas resistirem a choques externos, mas de transformarem a economia local de forma colaborativa através de três pilares: criação de conhecimento, empreendedorismo e colaboração (cooperação em rede).
A Teoria do Brincar (Play) e o *Serious Play® O brincar na idade adulta funciona como um simulador cognitivo de baixo risco para o desenvolvimento de competências de alta complexidade exigidas pela gestão estratégica.
Conforme Sutton-Smith (1997 em Roos & Victor, 1999), o brincar expande a "variável adaptativa" humana ao criar espaços protegidos de ambiguidade e exploração livre de ameaças punitivas, favorecendo a criatividade e a flexibilidade. Adicionalmente, as pesquisas sobre Learning Through Play (Zosh et al., 2017) demonstram que o aprendizado profundo e duradouro é facilitado por experiências alegres, significativas, ativamente engajadas, interativas e socialmente conectadas.
A operacionalização prática dessa abordagem fundamenta-se no método Serious Play® (Roos & Victor, 1999; Roos, Victor & Statler, 2004). Trata-se de um processo de facilitação de problemas complexos que propõe a transição de discussões bidimensionais tradicionais (slides, relatórios escritos) para construções metafóricas tridimensionais. Ao convidar os líderes a "pensar com as mãos", o método ativa a cognição corporizada (ou conhecimento háptico), facilitando a emersão de conhecimentos tácitos e intuições que de outra forma permaneceriam inacessíveis ao pensamento puramente lógico-analítico (Bürgi & Roos, 2003).
3. Desenho de Pesquisa e Percurso Metodológico
Para responder à pergunta de pesquisa de forma rigorosa e transparente, esta seção detalha as escolhas metodológicas, a amostra selecionada e os antecedentes estruturantes de validação.
Justificativa do Desenho de Pesquisa Este estudo classifica-se como uma Avaliação de Intervenção de Natureza Qualitativa e Exploratória.
A escolha deste desenho em detrimento de uma Pesquisa-Ação (Action Research) clássica justifica-se pelo escopo temporal e metodológico. A pesquisa-ação exige, por definição, ciclos sucessivos, iterativos e longitudinais de planejamento, ação, observação e reflexão, nos quais o pesquisador permanece ativamente inserido no sistema social em conjunto com os atores locais ao longo de um período prolongado para solucionar um problema prático sistêmico. O Submissão ao Evento Acadêmico-Executivo - Página 4 presente estudo avalia o impacto e as percepções geradas por uma intervenção estruturada de curta duração (workshop intensivo de 4 horas).
Adicionalmente, o desenho afasta-se de um Estudo de Caso Exploratório puramente descritivo por haver uma manipulação intencional do ambiente de aprendizado por meio de uma intervenção educativa ativa (o workshop baseado no kit alternativo e na facilitação estruturada).
Portanto, a Avaliação de Intervenção mostra-se o enquadramento metodologicamente honesto e preciso, avaliando sistematicamente as reações, percepções e respostas socioemocionais imediatas emergentes de uma prática de facilitação delimitada.
Amostra, Recrutamento e Controle de Viés O estudo empírico foi realizado na Comunidade de Tumbira, localizada na RDS do Rio Negro, no estado do Amazonas. O recrutamento foi conduzido com o suporte da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), selecionando participantes pertencentes ao Programa de Empreendedorismo e Negócios Sustentáveis da Amazônia (Pensa), que atua no fomento a negócios de impacto socioambiental na floresta (FAS, 2024).
A amostra final foi composta por 30 empreendedores sociais ribeirinhos (12 participantes no primeiro dia e 18 participantes no segundo dia). Embora 40 empreendedores estivessem inicialmente selecionados, condições climáticas severas e restrições de navegabilidade de barco ao longo do Rio Negro na data das oficinas impediram o deslocamento de parte dos inscritos no primeiro dia, demonstrando na prática as severas pressões logísticas do território.
Os critérios de inclusão foram:
- Estar há pelo menos dois anos à frente do empreendimento de impacto local;
- Ser o tomador direto de decisões estratégicas e operacionais no negócio.
Controle de Viés de Conveniência: Os pesquisadores reconhecem que a amostra apresenta um viés de seleção (conveniência), uma vez que os participantes já possuíam capacitações e engajamentos prévios oferecidos pelas instituições parceiras (FAS/FDC). Longe de invalidar os resultados, esse fator foi interpretado de forma controlada nas análises: a prontidão inicial e a confiança estabelecida atuaram como um facilitador para que o grupo superasse rapidamente as barreiras de inibição lúdica, permitindo que as oficinas atingissem níveis de profundidade metafórica e expressão de vulnerabilidade por conta do engajamento comunitário prévio.
A Prova de Conceito (POC) em São Paulo Como etapa fundamental de calibração instrumental e metodológica anterior à ida a campo, foi realizada uma Prova de Conceito (POC) no dia 14 de maio de 2025, no campus da Fundação Dom Cabral em São Paulo. O estudo piloto envolveu um painel de 9 especialistas em educação, recursos humanos e desenvolvimento humano, com participação voluntária e confidencial garantida por termo de consentimento.
Os objetivos específicos da POC consistiram em:
- Avaliar a aderência física e a versatilidade tátil do kit de materiais alternativos;
- Verificar a clareza e a precisão dos enunciados e instruções de facilitação;
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3. Testar a eficácia da dinâmica de tomada de decisão sob restrição inesperada de
recursos para evocar respostas emocionais.
A avaliação quantitativa da POC revelou que 100% dos 9 especialistas avaliaram a experiência com notas 4 ou 5 (em uma escala de 1 a 5), sendo que 66,7% concederam a nota máxima "Excelente". Os comentários qualitativos indicaram a necessidade de refinamentos cruciais, que foram integralmente incorporados ao desenho da intervenção na Amazônia:
• Ajuste de Linguagem: Necessidade de desconstruir enunciados corporativos abstratos e
calibrar a comunicação da facilitação aos códigos culturais regionais das comunidades ribeirinhas, garantindo respeito e segurança psicológica;
• Precisão Instrumental: Correção das instruções para orientar os participantes a
diferenciarem claramente entre "emoções representadas no modelo tridimensional" e "emoções vivenciadas no momento da atividade";
• Otimização do Kit: Ampliação das dimensões físicas das bases de madeira para suportar
composições espaciais mais ricas e revisão das quantidades de peças de Miriti por kit para otimizar a liberdade criativa.
Coleta de Dados O processo de documentação científica envolveu fontes de evidência qualitativa para viabilizar a análise dos dados:
• Gravação integral em vídeo das oficinas e das apresentações finais de storytelling (com
duração média de 5 a 10 minutos por grupo) e posterior transcrição literal;
• Diários de campo detalhados elaborados por duas pesquisadoras facilitadoras durante a
execução das oficinas;
4. O Design da Intervenção e o Kit de Inovação Amazônico
Para viabilizar a aplicação do método Serious Play® na Floresta Amazônica brasileira de forma sustentável, escalável e culturalmente sensível, o projeto abdicou do uso de blocos de LEGO® e projetou o Kit de Inovação Amazônico.
Sinergias do Kit com os Princípios do Serious Play® O kit é composto por um ecossistema tátil integrado de baixo custo, composto por quatro elementos que espelham perfeitamente os princípios da cognição corporizada e da diversidade sistêmica (Roos & Victor, 2018):
1. Brinquedos de Miriti: Miniaturas leves, esculpidas à mão por artesãos regionais de
Abaetetuba (Pará) utilizando a fibra tátil e maleável extraída do pecíolo da palmeira de Miriti (Mauritia flexuosa). Representam animais da fauna amazônica (botos, tucanos), transportes fluviais (canoas de vela, barcos) e figuras humanas com articulações flexíveis. Esses brinquedos atuam como âncoras de memória afetiva e resgate cultural lúdico, reduzindo barreiras de defesa psicológica e tornando a criação de metáforas um processo intuitivo;
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2. Blocos de Madeira ("Brincando de Engenheiro"): Blocos geométricos estruturais
clássicos de madeira sustentável, inseridos para conferir estabilidade, abstração e representações de edificações (casas, pontes), estabelecendo um diálogo de contraste lúdico e estrutural com as formas orgânicas do Miriti;
3. Hastes de Chenille Coloridas: Elementos flexíveis e maleáveis ("limpa-cachimbos") que
atuam como conectores livres de união física. Nas mãos dos empreendedores, as hastes foram transformadas em fluxos de rios, redes de relacionamento, barreiras logísticas e conceitos abstratos;
4. Bases Hexagonais de Madeira: Plataformas de madeira MDF que servem como
delimitadores do espaço de representação tridimensional. Os pequenos furos presentes no perímetro das bases hexagonais — originalmente um detalhe técnico de manufatura — revelaram uma funcionalidade emergente: os participantes utilizaram os furos para encaixar e tensionar as hastes de chenille, possibilitando a criação de pontes e conexões tridimensionais que deram uma nova escala espacial de complexidade às suas paisagens metafóricas.
A Tecnologia de Inteligência Artificial como Ponte Linguística A precisão linguística dos enunciados e a neutralização de barreiras culturais foram garantidas pelo uso inovador de inteligência artificial generativa (ChatGPT) como ponte metodológica de facilitação.
Para que as perguntas de reflexão do workshop fossem intuitivamente compreendidas sem causar desconforto cognitivo ou sensação de distanciamento acadêmico, a inteligência artificial foi alimentada com o corpus do guia Laboratório de Práticas de Negócios da Amazônia da FAS, documento amplamente utilizado nas capacitações locais ribeirinhas. A IA mimetizou o tom de voz do guia: próximo, motivador, acolhedor, centrado no pronome "você" e isento de jargões mercadológicos estrangeiros. Os enunciados e instruções originais do workshop foram traduzidos para essa linguagem culturalmente sintonizada (ex: convertendo abstrações técnicas em metáforas naturais como "navegar" e "colher frutos"), garantindo o acolhimento pedagógico e mantendo intacto o fluxo de aprendizagem experiencial.
A Intervenção A intervenção de campo foi configurada em dois workshops de imersão, com duração de quatro horas cada, ancorados na metodologia Serious Play® utilizando um kit de material desenvolvido especificamente para a intervenção com o catalisar o pensamento metafórico e a resolução criativa de problemas.
Os workshops foram ancorados nos princípios da metodologia inovadora do Serious Play® para promover Aprendizagem Experiencial e por meio do desenvolvimento de competências socioemocional.
As atividades foram conduzidas ao longo de dois dias consecutivos, envolvendo uma amostra total de 30 participantes. No primeiro ciclo, contou-se com 12 integrantes, enquanto o segundo reuniu 18 participantes. Em ambas as sessões, a amostra foi subdividida em dois grupos de trabalho, cada qual mediado por uma pesquisadora facilitadora para garantir a profundidade das interações e o diário de campo.
O roteiro metodológico foi estruturado em cinco etapas progressivas, desenhadas para evoluir da introspecção individual para a colaboração sistêmica:
Atividade 1 – Autoconhecimento: Focada na exploração da identidade individual e no estabelecimento de um ambiente de segurança psicológica e confiança mútua.
Atividade 2 – O Desafio ou Crise do Negócio: Introdução de situações profissionais críticas, servindo como base empírica para as modelagens subsequentes.
Atividade 3 – Inteligência Emocional: Exercício de diferenciação entre o empreendedor e o projeto, visando o desenvolvimento da autorregulação emocional diante de incertezas.
Atividade 4 – Análise Situacional e Decisão Responsável: Aplicação prática de conceitos de resiliência e autorreflexão para a tomada de decisões em cenários adversos.
Atividade 5 – Colaboração e Cocriação: Integração e consolidação dos aprendizados compartilhados através da construção coletiva de soluções.
Ao final da jornada, realizou-se uma etapa de fechamento qualitativo, onde os participantes registraram suas percepções sobre o processo em quadrantes: "Foi bom porque...", "Pena que...", "O que aprendi" por meio de suportes físicos de rápida anotação (post-its).
A coleta de dados durante o workshop utilizou múltiplos instrumentos de registro:
Documentação Multimídia: Gravação integral em vídeo das atividades e das apresentações finais de storytelling, que variaram entre 5 e 10 minutos por grupo, seguidas de transcrição completa.
Diários de Campo: Produção de relatos descritivos detalhados pelas pesquisadoras facilitadoras durante a execução dos workshops.
5. Resultados e Análise Empírica dos Workshops em Tumbira
Os dados coletados em campo ao longo dos dois dias de intervenção revelaram dinâmicas ricas de comportamento adaptativo entre os 30 empreendedores participantes, divididos em quatro coletivos lúdicos e organizacionais:
Caracterização dos Coletivos Lúdicos Estudados
1. Coletivo da Ancestralidade e Ofício Tradicional (Dia 1 - Grupo 1): Composto por
casais de artesãos tradicionais dedicados à construção de canoas de madeira e peças entalhadas à mão, herança simbólica de rituais tradicionais Baré de manejo florestal. Esse grupo demonstrou uma resiliência fortemente ancorada em valores morais, no respeito à memória intergeracional e na transmissão de saberes como combustível existencial para a continuidade produtiva;
2. Coletivo do Retorno Territorial (Dia 1 - Grupo 2): Composto por empreendedores
sociais que haviam migrado para grandes centros urbanos em busca de formação técnica ou emprego, mas que retornaram à comunidade movidos por um profundo sentimento de pertencimento. Utilizam a bagagem técnica adquirida externamente como capital social para fortalecer os empreendimentos comunitários;
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3. Coletivo da Nova Geração de Gestores (Dia 2 - Grupo 1): Composto por jovens
líderes encarregados de assumir a gestão estratégica das pousadas, do turismo de base comunitária e da cadeia de alimentação local. Caracterizam-se por alta prontidão analítica (com formações prévias em gestão de negócios pela FDC/FAS) e forte protagonismo feminino nas decisões operacionais. Nesse grupo, o principal desafio observado residiu em gerenciar tensões intergeracionais e construir segurança psicológica para o diálogo aberto;
4. Coletivo da Irmandade e Solidariedade de Gênero (Dia 2 - Grupo 2): Formado
inteiramente por mulheres empreendedoras dedicadas ao artesanato regional e à gastronomia florestal. Demonstraram laços extremamente densos de solidariedade, compartilhando matérias-primas e clientes ao longo dos períodos de crise climática, o que mitiga as vulnerabilidades financeiras individuais através de uma rede informal de segurança socioeconômica.
A Trajetória Emocional da Resiliência Comunitária A observação sistemática e as transcrições das apresentações revelaram um padrão adaptativo de comportamento psicológico frente ao estresse.
Submissão ao Evento Acadêmico-Executivo - Página 10 Este padrão é caracterizado por três etapas sequenciais:
1. Choque Inicial: Ao modelarem e reviverem o cenário de crise, os participantes
expressam sentimentos de paralisia, medo, raiva e profunda tristeza gerados pelas adversidades sistêmicas;
2. Transição Acelerada para a Ação: Ocorre um rápido reajuste mental de enfrentamento.
Os sentimentos de paralisia são rapidamente canalizados para estratégias ativas de superação, busca de soluções criativas e reorganização de recursos escassos;
3. Empoderamento e Resultado Positivo: Após superarem as perturbações e
reconfigurarem seus modelos, emergem sentimentos intensos de orgulho, confiança e alegria.
Este rápido ciclo de autorregulação emocional não é decorrente de uma escolha meramente poética dos sujeitos; ele constitui um imperativo de sobrevivência biológica e econômica gerado por vulnerabilidades socioambientais estruturais extremas na Amazônia. As severas secas históricas dos rios amazônicos ocorridas em 2023 e 2024 foram identificadas de forma universal pelas lideranças locais como a crise mais avassaladora de suas trajetórias.
A seca de um rio na Amazônia paralisa as hidrovias, bloqueia o fluxo logístico de mercadorias, isola comunidades inteiras e interrompe por completo o turismo de base comunitária, forçando os moradores a caminharem quilômetros carregando suas canoas pela lama sob calor extremo para garantir alimentos e combustível. Para o empreendedor ribeirinho, "desistir significa parar de viver"; a resiliência é um atributo indissociável da vida cotidiana integrada aos ciclos severos da floresta.
O Momento "Você além do seu Negócio" (Dissociação de Identidade) Durante as dinâmicas de tomada de decisão sob perda, observou-se um momento marcante de transformação cognitiva. Um participante, de forma espontânea, pegou a pequena placa de madeira que representava seus sentimentos e a colocou debaixo de uma das canoas de Miriti sob a crise. A partir desse gesto intuitivo, as facilitadoras propuseram uma reflexão coletiva de que, embora as emoções do indivíduo sejam inevitavelmente impactadas pelas tormentas materiais e financeiras do negócio, a identidade e o valor humano do líder não se confundem com a crise de sua empresa.
Esta experiência de descolamento de identidade aliviou a carga de estresse do grupo, permitindo que visualizassem os problemas operacionais com maior clareza e racionalidade estratégica. Como registrado nos diários de campo das facilitadoras, os participantes verbalizaram a compreensão de que as crises de seus negócios são circunstanciais, enquanto seus saberes e capacidades de recomeço são permanentes.
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6. Discussão: O Fim do "Heroísmo Solitário" e a Extrapolação
Corporativa Os aprendizados empíricos colhidos em Tumbira desafiam os modelos convencionais de desenvolvimento de liderança e oferecem subsídios relevantes para a gestão estratégica global.
A Desconstrução do Mito do Empreendedor Heroico No cânone tradicional das escolas de negócios, perpetua-se historicamente a perspectiva schumpeteriana do empreendedor como um "herói solitário" ou "gênio isolado", cuja determinação e tenacidade individual seriam suficientes para romper o equilíbrio de mercado e forjar rotas de sucesso independentemente do contexto.
A pesquisa na Amazônia contradiz radicalmente essa premissa. Em cenários de vulnerabilidade extrema e disrupções recorrentes, o empreendedorismo revela-se, em sua essência, uma prática estritamente coletiva, distribuída e situada no território. Na imensidão do Rio Negro, a unidade mínima de sobrevivência e prosperidade não é o "eu", mas sim o "nós" comunitário.
As narrativas metafóricas construídas pelos empreendedores sociais de Tumbira evidenciam que a identidade individual já nasce coletiva. Ao serem instados a definir seus negócios, os participantes utilizaram a metáfora de uma engrenagem integrada ao bem-estar e progresso de todo o tecido comunitário local, corroborando a literatura de empreendedorismo de base comunitária de que a prosperidade só é sustentável quando é compartilhada.
Potencial de Extrapolação para o Ambiente Corporativo Executivo Embora gerados em um contexto comunitário específico de preservação ambiental, os aprendizados da metodologia RE:CREATE trazem hipóteses promissoras com forte potencial de extrapolação e tradução conceitual para a liderança e gestão executiva global, merecendo investigações científicas detalhadas em pesquisas futuras:
1. Desenvolvimento de uma metodologia estruturada para o desenvolvimento de Resiliência Criativa com base em 5 movimentos. Uma proposição teórica para pesquisas futuras, apresentada com o nome sugerido de RE:CREATE.
A proposta futura é que o desenvolvimento dessa metodologia seja baseado na intervenção de campo dessa pesquisa, servindo este estudo como seu marco. Tendo em vista que essa etapa está em desenvolvimento e se preparando para estudos futuros, os movimentos são descritos conceitualmente e de forma resumida através dos seus objetivos de aprendizado, omitindo-se os roteiros literais de exercícios, para salvaguardar o sigilo metodológico.
Proposta de Desenvolvimento da metodologia dos 5 Movimentos: RE:CREATE.
• Movimento I: Ancoragem de Identidade e Segurança Psicológica
Objetivo: Estabelecer a base de confiança mútua e segurança psicológica. Os participantes são convidados a traduzir de forma tátil suas forças internas e histórias de pertencimento por meio da escolha e representação de símbolos do kit, familiarizando-se com o pensamento metafórico tridimensional e ativando a cognição incorporada (skill building).
• Movimento II: Projeção Tridimensional do Desafio Real
Objetivo: Promover o descarregamento cognitivo. O participante externaliza materialmente e espacialmente uma crise real ou adversidade severa de seu empreendimento de impacto. Ao retirar o problema do plano mental abstrato e projetá-lo no modelo tátil visível, o participante obtém um distanciamento crítico e analítico indispensável para processar a complexidade do desafio de forma estruturada.
• Movimento III: Descolamento de Identidade e Autorregulação
Objetivo: Estimular a autorregulação emocional e a dissociação identitária. Lideranças sob extrema pressão frequentemente fundem seu valor pessoal com a instabilidade financeira ou logística de seus negócios. Este movimento utiliza representações de sentimentos associados à crise sobre uma base espacial secundária para demonstrar visualmente ao participante que o indivíduo e suas emoções interagem com o problema, mas não se confundem com ele. A visualização de que o líder é maior do que o obstáculo atua como um regulador de estresse e liberta a energia criativa.
• Movimento IV: Adaptabilidade Dinâmica sob Restrição Inesperada
Objetivo: Treinar a flexibilidade cognitiva e a tomada de decisão sob escassez severa. Após projetarem soluções para o desafio do Movimento II, os participantes vivenciam simulações de retirada súbita de recursos essenciais dos seus modelos tridimensionais (simulando disrupções externas repentinas). Eles devem gerenciar a frustração inicial em tempo real e reconfigurar criativamente suas estratégias de sobrevivência trabalhando sob extrema escassez de ativos, consolidando a metacognição de que soluções inovadoras emergem de forma rápida dentro das fronteiras da própria restrição.
• Movimento V: Inteligência Coletiva e Confluência Sistêmica
Objetivo: Desenvolver redes colaborativas de cooperação. As construções e soluções individuais de superação desenvolvidas nos movimentos anteriores são fisicamente integradas na mesa por meio das hastes de chenille e blocos de madeira, construindo um grande ecossistema tridimensional compartilhado. O movimento materializa a rede de segurança social e cooperação econômica, demonstrando que a competitividade a longo prazo em ambientes fragmentados reside na inteligência coletiva e na colaboração aberta.
2. A Escala Corporativa do Descolamento de Identidade: Executivos e gestores de
projetos de inovação em grandes corporações enfrentam estresse agudo, crises de mercado e falhas de produto. A transição conceitual do movimento de "descolamento de identidade" pode ser traduzida em treinamentos de liderança executiva para reduzir o esgotamento profissional (burnout) e aumentar a agilidade de tomada de decisão, treinando gerentes a dissociarem seu autovalor pessoal do insucesso conjuntural de projetos inovadores;
3. Redes de Segurança Baseadas na Solidariedade Sistêmica: Assim como a
"Irmandade Empreendedora" compartilha clientes e matérias-primas para sobreviver à seca climática amazônica, as organizações globais operando em mercados fragmentados podem extrair lições sobre o valor de cooperativas de inovação aberta, comunidades internas de prática e redes colaborativas informais de suporte mútuo interdepartamental para atenuar riscos operacionais conjuntos e acelerar o desenvolvimento de soluções;
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4. Simulações de Restrição sob Serious Play®: A dinâmica de tomada de decisão sob
restrição inesperada (com a retirada surpresa de recursos estruturais da solução do líder) fornece um excelente modelo de treinamento para times ágeis de tecnologia e gestão de crises corporativas. Ela treina a tolerância à incerteza, o processamento tático rápido e a flexibilidade de times de desenvolvimento ao forçá-los a reconfigurar produtos mínimos viáveis (MVPs) sob contingências orçamentárias severas.
7. Limitações da Pesquisa e Horizontes de Estudo Futuros
Para assegurar a honestidade intelectual, a transparência metodológica e mitigar vieses de interpretação, é imperativo explicitar as limitações intrínsecas a esta investigação:
• Escopo Temporal da Intervenção: O desenvolvimento de competências
socioemocionais duradouras é um processo de longo prazo. A realização de um workshop intensivo de 4 horas, embora de alta potência reflexiva e transformadora, não autoriza inferências ou afirmações causais definitivas de que a resiliência criativa dos participantes tenha sido permanentemente desenvolvida ou alterada, avaliando-se, em rigor científico, as percepções e respostas adaptativas imediatas relatadas pelos sujeitos;
• Limitação Amostral e Viés de Seleção: O estudo foi conduzido com uma amostra
reduzida (N=30) e delimitada a um território amazônico específico. Adicionalmente, o viés de conveniência associado à seleção de empreendedores sociais pré-engajados em programas de educação continuada da FAS/FDC restringe a generalização direta dos resultados para outras regiões do país ou para empreendedores sem qualquer suporte instrucional prévio;
• Ausência de Grupo de Controle e Métricas Quantitativas: A investigação baseou-se
estritamente em uma abordagem qualitativa de dados. A ausência de um grupo de controle de comparação (ex: aplicando a facilitação sem o kit regionalizado de Miriti) ou de instrumentos quantitativos validados de pré-teste e pós-teste de resiliência impede a atribuição estatística causal do aumento da resiliência unicamente à intervenção aplicada;
• Efeito de Desejabilidade Social: Os feedbacks finais de post-its e relatos das discussões
podem ser influenciados pelo viés de desejabilidade social (o desejo do participante de expressar avaliações positivas para as facilitadoras parceiras da FAS/FDC);
• Desafios Metodológicos da Inteligência Artificial: O uso de IA generativa (ChatGPT)
para calibrar os enunciados do workshop, embora inovador e útil para promover a segurança psicológica, apresenta o risco intrínseco de perda de sutilezas, expressões idiomáticas orgânicas e dialetos ribeirinhos genuínos do Rio Negro que não estivessem formalizados na base documental de referência de escrita da FAS.
Recomendações para Pesquisas Futuras A superação dessas limitações delineia caminhos férteis para futuras investigações científicas:
• Replicação e Testes Comparativos: Propõe-se a realização de replicações sistemáticas
deste desenho metodológico em outras comunidades tradicionais (como comunidades indígenas, quilombolas e de agricultura familiar) e a aplicação de quase-experimentos Submissão ao Evento Acadêmico-Executivo - Página 13 comparativos (utilizando grupos de controle com facilitação baseada em blocos plásticos industriais versus grupos experimentais com o Kit Amazônico de Miriti) para mensurar a variação exata da eficácia da ancoragem cultural;
• Estudos Longitudinais: Recomenda-se o acompanhamento longitudinal dos participantes
ribeirinhos ao longo de ciclos plurianuais de secas e cheias para avaliar o impacto real de longo prazo das intervenções pedagógicas ativas na sustentabilidade econômica e resiliência financeira de seus negócios;
• Validação Empírica no Ambiente Corporativo: Sugere-se o desenvolvimento de estudos
empíricos dedicados a testar o potencial de transição e aplicabilidade da metodologia RE:CREATE para o universo corporativo executivo tradicional de alta performance, validando se a dissociação de identidade de liderança e a simulação de escassez lúdica produzem redução estatisticamente significativa nos índices de burnout de executivos globais e ampliação da agilidade tática de equipes corporativas.
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Como citar
KEIL, Ana. Cooperar para competir em um mundo fragmentado: a resiliência criativa como estratégia de liderança coletiva na Amazônia. Crivum, 2026. Disponível em: https://crivum.org/p/x9bqywsz.
Keil, A. (2026). Cooperar para competir em um mundo fragmentado: a resiliência criativa como estratégia de liderança coletiva na Amazônia. Crivum. https://crivum.org/p/x9bqywsz
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